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Operação “Ripper” e o interesse britânico pela Madeira

Ripper foi o nome de código de uma Operação militar que durante a 2ª Guerra Mundial se preparou em Londres para capturar a Madeira, acção ponderada entre Fevereiro de 1942 e meados de 1943. Cumprem-se agora 80 anos.

A 2ª Guerra tornara-se verdadeiramente mundial em finais de 1941: a URSS passara a ser o alvo das tropas alemães; o Japão desenvolvera a sua política expansionista no Oriente; os EUA passaram a beligerantes. O primeiro e o último ajudam a perceber o contexto da Operação Ripper.

O ataque à URSS contribuíra para que em Portugal emergisse a ideia de que a Inglaterra não seria capaz de ganhar a guerra (pensamento que só se começou a alterar em meados de 1942); a entrada dos EUA e a actividade dos submarinos alemães fizeram com que se renovasse a função e a importância do Atlântico. Com tudo isto, a guerra aproximou-se da Madeira.

Nesta fase, uma das consequências da política externa de Salazar, mesmo sem hostilizar os britânicos, foi resistir à pressão inglesa para obter mais apoio de Portugal. A isto juntou-se também uma manifesta oposição às ambições atlânticas dos EUA.

Ora, as ambiguidades do governo português acabaram por conduzir a uma aproximação entre Lisboa e Berlim. Em 1941-42, ainda assim, o afastamento de Portugal em relação aos aliados até nem foi mal recebido em Londres e Washington, pois permitiria justificar mais facilmente qualquer acção agressiva contra os espaços portugueses.

Por outro lado, os interesses (e receios) britânicos estavam também relacionados com a situação de Gibraltar, ponto estratégico essencial, então muito pressionado (não por acaso muitos gibraltinos se refugiaram na Madeira).

Ou seja: no início de 1942, perante tais ameaças, a Inglaterra tinha necessidade de dispor de vias de comunicação relativamente seguras no Oceano e encontrar alternativas viáveis à utilização de Gibraltar como base naval. Isso poderia concretizar-se pela diplomacia ou pela força. Ora, a Operação Ripper respondia à necessidade de agir sem ter o acordo prévio do governo português, fazendo uso da força e em consonância (mas não necessariamente em simultâneo) com uma outra (Brisk) para a captura de ilhas açorianas.

A Madeira, mesmo sem aeródromo – insuficiência destacada - possibilitava uma maior profundidade atlântica, reforçava o controlo da entrada no Mediterrâneo e fornecia um ponto de apoio próximo da costa africana, num momento em que já se tinham detectado reabastecimentos de submarinos alemães em Canárias. Numa conjuntura internacional difícil para os aliados, a Madeira apresentava-se como um ponto estratégico de relevo, no quadro do triângulo estratégico português (Lisboa - Açores - Cabo Verde).

O primeiro esboço da operação militar britânica (de 26/2/1942) foi dirigido ao Almirantado, ao Ministério do Ar e a responsáveis pela logística. Nele já estavam gizados objectivos e procedimentos: ocupar a Ilha, com o propósito desta funcionar como ponto de apoio e reabastecimento para os destroyers e cruzadores em missões de vigilância, com a hipótese de usar a baía como base para hidroaviões; indicavam-se as unidades materiais e humanas necessárias, assim como as acções de propaganda e subversão a realizar. Em Março estavam traçadas as linhas gerais e em Abril estava tudo pronto para aprovação (e concretização, se necessário fosse, no Verão de 42).

Sabia-se que as defesas insulares eram obsoletas, que não existia defesa aérea e que eram escassas as capacidades materiais. Em condições normais, as operações - envolvendo 4.200 homens e 160 veículos - estariam concluídas em 7 dias. O primeiro desembarque, a coberto da escuridão, teria lugar na Praia Formosa e seria feito por comandos.

Como é óbvio, eram tidos em consideração quer a influente comunidade britânica, quer um número elevado de madeirenses que se sabiam favoráveis aos aliados. Nunca existiram dúvidas, portanto, quanto ao sentimento geral da população, que se sabia consciente da benignidade da acção militar projectada, apesar de também estarem devidamente identificados vários indivíduos pró-nazis.

Contudo, nos meses seguintes, o decorrer da guerra e o êxito crescente da Operação Torch (desembarques aliados no Norte de África, em Novembro de 1942) contribuíram para a gradual mudança do foco.

Ainda assim, em Maio de 1943 a Operação voltou a ser equacionada pela Inglaterra, mas agora de modo fugaz e com algumas actualizações, estas devido ao contingente militar insular ter sido entretanto reforçado. Tal sucedeu na sequência da Conferência Trident (entre os Estados-Maiores aliados, com a presença de Churchill e Roosevelt), perante o hipotético recrudescer da acção dos submarinos alemães, mas também por causa da atitude de crescente interesse dos EUA pelo Atlântico, algo que incomodava o governo britânico.

Mais uma vez, porém, o desenrolar da guerra tornou desnecessário avançar com a Operação. Por três motivos: a retirada dos submarinos alemães; a confirmação do êxito das operações em Itália e, acima de tudo, o acordo entre Lisboa e Londres (assinado em Agosto), para a utilização dos Açores por forças britânicas a partir de Outubro de 1943. E assim se arquivou uma acção que na essência até já se desenvolvera com êxito no século XIX, durante as Guerras Napoleónicas.

O que tudo isto nos pode dizer em relação ao presente e ao futuro da Madeira no quadro dos interesses sobre o espaço euro-atlântico? Isso já será outra História.