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Equipa de Lula da Silva tenta incorporar promessas de campanha 30 dias após vitória

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A socióloga brasileira Carolina Botelho considera que a equipa de transição formada pelo futuro Governo brasileiro liderado por Luiz Inácio Lula da Silva a partir de janeiro de 2023 tem trabalhado para incorporar promessas de campanha.

"Nesse governo de transição vemos elementos da campanha eleitoral. As promessas de campanha têm sido incorporadas pelas equipas que formulam a agenda de transição", afirmou à Lusa a analista política do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e do Laboratório de Estudos Eleitorais, de Comunicação Política e Opinião Pública da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

"O governo de transição tem priorizado atuar para ampliar o leque de apoios [que recebeu na campanha] nos setores da sociedade para mostrar que a vitória sobre o outro candidato foi uma vitória de uma frente ampla, de uma frente que quer prestar contas com o Brasil", acrescentou.

Segundo a socióloga, trinta dias depois da vitória de Lula da Silva sobre o atual Presidente, Jair Bolsonaro, na segunda volta das presidenciais em 30 de outubro, a equipa de transição composta por 280 integrantes tem feito levantamentos dos dados das diferentes áreas do Governo unindo pessoas de vários setores da sociedade, muitas das quais já foram adversárias do Partido dos Trabalhadores (PT) e de Lula da Silva para "reconstruir uma agenda pública" no país.

Para balizar sua avaliação, Carolina Botelho lembrou que o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, simboliza esta união depois de ter sido indicado como chefe do grupo de transição.

"Em segundo lugar, a gente vê várias pessoas e vários setores com ideias, muitas vezes opostas sobre políticas públicas trabalhando agora juntas para fazer valer aquilo que foi anunciado na campanha eleitoral", afirmou Carolina Botelho.

"Especificamente, [a transição para o Governo Lula] tem cumprido as promessas e tem trazido uma série de elementos que foram colocados e que a sociedade pediu e apoiou porque queria uma reconstrução do tecido republicano democrático que foi agredido nos últimos quatro anos", completou.

Embora os grupos de trabalho da transição atuem para fazer diagnósticos sobre diferentes áreas do Governo brasileiro num momento em que não há indicação concreta das pessoas que vão de facto comandar os Ministérios, a socióloga reforçou que o trabalho em andamento é positivo.

"A bandeira fundamental da campanha que está a ser incorporada é trazer foco nas políticas públicas para as pessoas que passam por situações de pobreza, miséria, carência alimentar e cujos filhos ficaram fora da escola", disse.

Segundo Carolina Botelho, estas são pessoas que sofreram muito com a pandemia "especialmente mulheres que tiveram que cuidar de suas crianças, dos idosos, da família que perderam o emprego e a renda. O foco [da equipa de transição] tem sido e prioritariamente neles, o que é convergente com a campanha. Então, acho isto muito positivo."

Para a cientista social, a demora do futuro Governo para anunciar nomes, especialmente na área económica onde já há muitas incertezas e uma grande pressão de agentes do mercado com ampla repercussão na comunicação social, deve-se à necessidade de uma escolha forte de uma pessoa para liderar o futuro Ministério da Fazenda, hoje chamado Ministério da Economia, que deverá ser reformulado e dividido em mais de uma pasta a partir de janeiro de 2023.

"O que eu sei é que parte desse mercado financeiro, digamos assim, priorizou a eleição de Lula [da Silva] exatamente por representar a volta de uma normalidade democrática, mas um outro grupo continuou com o Bolsonaro, a despeito de toda a violência feita [pelo atual Presidente] à Constituição e aos valores republicanos democráticos", avaliou.

Carolina Botelho defendeu que é necessário desmistificar o chamado "mercado", que muitas vezes é tratado como uma entidade inanimada, mas é composto por pessoas e agentes que estão ligados e formam grupos com preferências ideológicas e interesses políticos bem definidos.

"Levo em consideração que há um governo de transição que está funcionando, que está funcional e tem muitos setores [trabalhando juntos] lá dentro. É. uma base ampla. Quem está dirigindo e liderando essa transição é uma pessoa que durante duas décadas era adversário político do próximo Presidente e está trazendo amplos setores da sociedade e tentando olhar para todos os ângulos dos problemas brasileiros", concluiu.