O Casaco de Ouro

Não tem sido infrequente o conhecimento de comentários infelizes e de ostracismos no trato de diagnosticados com COVID-19.

De facto, são por demais os casos dos quais tenho tido conhecimento que os NOVOS DOENTES, em particular os jovens, têm sido destratados como irresponsáveis por adquirirem a infeção, por se dirigirem para testes por sintomas ou, pura e simplesmente reprimidos, porque para festas estariam sempre prontos…

É um facto que os jovens, por todas as razões que já conhecemos, se põem mais a jeito! Aceito!

O que não é aceitável é que os profissionais de saúde, muitas vezes jovens e demasiadas vezes mal formados, já se tenham esquecido que também já foram mais novos e que tiveram a sorte de ter uma juventude sem condicionamentos ou futuro seguro à vista como os presentes! Pior… que já se tenham esquecido que em faixa etária semelhante, correram riscos bem maiores!

Convido todos os intervenientes na saúde, do sector público e do privado, a porem a mão na consciência todos os dias, antes de saírem de casa, por muito cansados que se sintam e se lembrem:

Que o lado aparentemente mais poderoso da vossa cadeira é tão efémero, que se tiverem o azar de não morrer repentinamente, um dia se sentarão na cadeira oposta;

Que quem se senta à vossa frente, por grande que seja o erro cometido, tem angústia e sente medo; Que esse facto não nos deve conferir poder mas sim empatia e a capacidade de oferecer conforto e carinho;

As moscas caem inadvertidamente na sopa sã, mas procuram avidamente o esterco! Desenganem-se os que vestem um casaco de ouro e se apropriam do medo e do azar dos outros para parecerem maiores porque, a qualquer instante, a vida oferece surpresas e lembra a insignificante condição de sermos, ao contrário do que alguns pensam, todos igualmente pequenos, efémeros e frágeis!

Ser humano não é o oposto de ser símio, é tão somente a consciência plena da nossa existência transitória e curta.

Ser humano é a consciência que não seremos lembrados pelos grandes feitos, que poucos acharão que fizemos, mas pela forma como nos relacionamos com os outros e lhes tocamos o coração nos momentos mais difíceis.

Duarte Franco