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Papa lamenta que o acusem de heresia, defende emigração e saúda mulheres

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O Papa Francisco lamentou hoje que o acusem, por vezes, de heresia, frisou que o mundo "não tomou consciência" de que emigrar é um direito humano e considerou que são as mulheres que "carregam a História".

No voo de regresso do Iraque, onde efetuou uma visita de três dias, e em declarações aos jornalistas, Francisco, 84 anos, afirmou que, embora às vezes lhe digam que "está a um passo da heresia", são os riscos que se correm num papado, que não são um capricho seu e desdramatizou as críticas.

"Muitas vezes é preciso correr riscos para dar esse passo. Há algumas críticas de que o Papa não é corajoso, que é um inconsciente, que está a tomar medidas contra a doutrina católica, que está a um passo da heresia. São riscos, mas essas decisões são sempre tomadas na oração, no diálogo, no pedido de conselhos, não são um capricho", disse Francisco na tradicional entrevista coletiva no avião após as viagens.

Francisco destacou sobretudo o encontro realizado no sábado com o 'ayatollah' Al Sistani, lembrando que a referência religiosa dos muçulmanos xiitas do Iraque raramente se levanta para cumprimentar alguém e fê-lo em duas ocasiões para lhe apertar a mão.

"É um homem sábio, um homem de Deus e isso só se percebe quando se o ouve. É uma pessoa que tem sabedoria e prudência. Disse-me que há 10 anos que não recebe quem o visita por outros motivos, políticos ou culturais, apenas religiosos. Ele foi muito respeitoso no encontro. Senti-me honrado. Cumprimentou-me. Nunca se levanta. E duas vezes se levantou para me cumprimentar. Um homem humilde e sábio. Este encontro fez bem à minha alma", descreveu.

Durante a estada no Iraque, Francisco percorreu 1.445 quilómetros, a maior parte do tempo de avião ou de helicóptero, sobrevoando zonas onde se encontram células clandestinas de grupos de extremistas islâmicos.

Quando se dirigiu ao país, o chefe da Igreja Católica disse que o "terrorismo abusa da religião", apelou à paz e à unidade no Médio Oriente e lamentou a saída de cristãos da zona e que foram obrigados a procurar refúgio noutros países. 

Sobre se a mensagem do encontro foi dirigida aos líderes religiosos do Irão, Francisco assegurou que era para o mundo inteiro.

Nas declarações aos jornalistas, o Papa realçou que o mundo ainda não tomou consciência de que a emigração é um direito humano e lamentou que a muitos dos habitantes do planeta não lhes reste outra opção.

"Enquanto regressava de Qaraqosh e Erbil vi muita gente jovem. Qual é o futuro destes jovens? Para onde irão? São tantos os que terão de deixar o país", afirmou.

"A emigração é um direito duplo, o de não emigrar e o de poder emigrar. Esta gente não tem as duas opções porque não podem não emigrar e tão pouco podem emigrar porque o mundo ainda não tom consciência de que a emigração é um direito humano", explicou.

Para Francisco, são necessárias medidas urgentes para que os jovens consigam trabalhar nos seus países de origem "para que não precisem de emigrar".

Dobre as mulheres, cujo dia internacional se celebra hoje em todo o mundo, o Papa referiu que são elas "quem carrega a História", destacando a "valentia das iraquianas".

Francisco lembrou que, no voo de ida para o Iraque, um jornalista lhe mostrou a "lista de preços" que os 'jihadistas' do grupo Estado Islâmico (EI) pagam pelas mulheres, tendo respondido, então, que elas "se humilham e se vendem, também no centro de Roma".

O papa explicou que, numa das suas visitas a uma casa que cuida de mulheres salvas da prostituição, uma das jovens ficou com uma orelha cortada por não trazer dinheiro suficiente, e que outra jovem de Bratislava chegou à Itália sequestrada no porta-bagagens de um carro.

Citou ainda o horror da mutilação sexual feminina em muitas partes da África, porque "é um rito que [culturalmente] deve ser feito". 

"As mulheres ainda são escravas e temos de lutar pela dignidade da mulher. São elas que carregam a História. Não é um exagero. As mulheres carregam a História. E não o digo porque hoje é o dia da mulher. É assim", frisou.

Regressando ao tema da visita ao Iraque, Francisco assegurou ter pensado muito e ter noção dos riscos, quer por razões de segurança quer por causa da pandemia do novo coronavírus.

"As viagens são cozinhadas no tempo, na minha consciência e isso (a pandemia) é uma coisa que me fez duvidar, mas já rezei muito e tomei uma decisão livre e que veio de dentro", disse quando questionado sobre os riscos de as pessoas adoecerem ao participarem nas suas ações. 

"Disse a mim mesmo, aquele que me faz decidir (Deus) pode cuidar das pessoas. E assim tomei a decisão, depois de orar e sabendo dos riscos". 

Francisco respondeu durante uma hora às perguntas dos jornalistas sobre a viagem ao Iraque e sobre as futuras visitas, agora que foram retomadas após um hiato de 15 meses devido à pandemia, embora tenha confessado que, nesta deslocação, se sentiu mais cansado do que nunca -- "os 84 anos são pesados". 

Sobre aquela que é já a tradicional pergunta no final de uma visita papal, para quando uma deslocação à Argentina natal, Francisco brincou.

"Sempre que me fazem essa pergunta respondo que já lá estive 76 anos", afirmou, acrescentando, já a sério, que a fará quando houver oportunidade e que essa visita se deveria estender ao Uruguai e ao sul do Brasil, "já que têm uma semelhança cultural".

Em relação aos projetos de viagem e ao iminente aniversário do seu oitavo ano de pontificado, Francisco confirmou que viajará à Hungria para o encerramento do Congresso Eucarístico em setembro próximo e que, como a Eslováquia se encontra a apenas 200 quilómetros, também poderá estender a visita àquele país. 

Francisco também falou sobre sua promessa de ir ao Líbano. 

"O Líbano sofre e o Líbano é mais que um equilíbrio. Tem a fraqueza de apresentar algumas diferenças e a força de um grande povo reconciliado", referiu, adiantando que ainda houve a possibilidade de visitar Beirute no meio da deslocação ao Iraque, mas que acabou por não o fazer por parecer "pouco, uma migalha, para um país que sofre".