Crónicas

O passeio

Não demorava até a história dos acidentes e dos meninos que, por teima, metiam a cabeça fora do vidro e ficavam sem ela

Este era o dia do passeio, de ir ao Monte ver o túmulo do imperador e passar na lagoa dos patos onde, a meio, ficava um mapa da Madeira, feito de pedra e que, a mim, me parecia uma obra da melhor arte que havia. A minha mãe gostava de nos mostrar os jardins e os patos, depois, tirava dinheiro da carteira para aqueles iô-iô de farelo e umas cornetas de plástico que se vendiam nos arraiais. Uma vez comprou-me um chapéu e um relógio de fingir, mas nunca se demorava muito entre os romeiros e o povo que ia pagar promessas e subia a escadaria de joelhos.

Ainda não se tinha tirado o papel dos rebuçados de leite e já ela cortava caminho até ao carro do meu tio Humberto. Lembro-me de como aquela hora no Monte, a cruzar-me com romeiros e pessoas agarradas a velas com forma de pernas, cabeças e braços, naqueles jardins ladeados de vendedores, me parecia estranha e como ficava ainda esquisita quando se entrava na igreja e via o túmulo do imperador. A história dizia que Carlos da Aústria estava inteiro, tal e qual como morrera. E por isso era santo.

Podia ser, mas pessoas mortas e túmulos davam-me arrepios na espinha e o passeio ficava melhor quando se seguia viagem para o Poiso e descia para a Portela. E já se podia comer rebuçados e ver as árvores a passar do lado de fora da janela, enquanto a minha mãe cismava, que um dia haveria de ter um feto como os do Monte, grande e frondoso. As árvores sucediam-se, umas a seguir às outras, e ouvia a minha mãe gritar ao meu irmão, o perigo que era ir assim, com a cabeça dependurada no vidro.

Não demorava até a história dos acidentes e dos meninos que, por teima, metiam a cabeça fora do vidro e ficavam sem ela. Sei que, durante anos, não fui capaz de colocar nem um dedo fora da janela, tanto o medo que me davam as histórias da minha mãe no passeio do dia do Monte quando íamos todos bem arrumados dentro do carro do meu tio Humberto. Lembro-me de como a minha mãe não tinha sossego, que nós queríamos ir os dois do lado da janela e, volta e meia, vinha-lhe à cabeça coisas como “será que desliguei o ferro, será que fechei a porta da cozinha?”

E dividia a preocupação com um ou outro estalo, muitos berros e apreensões de doces e brinquedos, que ficavam dentro da carteira até ao fim da viagem, sem que a minha mãe se impressionasse com as minhas lágrimas gordas. Uma vez decidido, estava decidido e não voltava atrás. Às vezes, parecia feita de ferro, mas era a primeira a mostrar a rocha, as árvores, as vistas, a puxar-nos pelo braço, que bonita era igreja, a ponte ou miradouro. E tão bom que era molhar os pés na água do mar e depois adormecer no ombro para acordar na curva do Pináculo, já as luzes da cidade estavam ligadas.

A última vez que fomos num desses passeios foi há coisa de 30 anos, ainda estavámos todos. As tias, o tio, a prima. Lembro-me de meter o braço à minha mãe e à minha tia Teresa, ali na quinta do Santo da Serra, e desse ter sido um dos meus melhores dias dessas férias da faculdade.

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