Bruxelas evita pronunciar-se sobre quem reconhece como Presidente
A porta-voz do Serviço Europeu de Acção Externa escusou-se hoje a indicar quem é que a União Europeia identifica como Presidente da Venezuela, evitando também pronunciar-se sobre a opção europeia de não reconhecer Juan Guaidó como Presidente interino.
Durante quase 20 minutos, na conferência de imprensa diária do executivo comunitário em Bruxelas, Maja Kocijancic escudou-se na declaração da chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, para ‘esquivar’ as questões sobre a legitimidade de Juan Guaidó como presidente interino do país, repetindo quase ‘ipsis verbis’ as palavras que constam no comunicado divulgado na noite de quarta-feira.
Em resposta à pergunta “Para a União Europeia, quem é o presidente da Venezuela?”, a porta-voz da Comissão Europeia e do Serviço Europeu de Acção Externa para os Negócios Estrangeiros limitou-se a responder com um breve “a forma como vemos a situação está expressa na declaração”.
Kocijancic ‘ignorou’ também os reiterados pedidos dos jornalistas para esclarecer o porquê de o bloco comunitário ter optado por “apoiar plenamente” a Assembleia Nacional da Venezuela e não por reconhecer o seu líder, Juan Guaidó, como presidente interino.
“Tentei explicar as nuances. Na declaração, apelamos a um processo político que possibilite a realização de eleições credíveis. Para mim, somos claros. Esta não é a declaração da Alta Representante, mas dos 28”, disse, depois de alertada por uma jornalista para o facto de “em todas as línguas da UE haver uma diferença entre apoio e reconhecimento”.
A porta-voz preocupou-se em deixar claro que a declaração de Federica Mogherini foi acordada com todos os Estados-membros e representa a posição da UE como um todo.
“Da minha parte, não vejo as diferenças que encontrou [entre apoio e reconhecimento], uma vez que na declaração somos muito claros: há um apoio à Assembleia Nacional como instituição que foi eleita democraticamente”, salientou.
Kocijancic elucidou ainda que, ao nível dos princípios, a UE não reconhece governos sem o reconhecimento dos Estados-membros.
Num comunicado divulgado na noite de quarta-feira noite, em Bruxelas, a chefe da diplomacia europeia salientou que “a UE apoia plenamente a Assembleia Nacional como instituição democraticamente eleita”, argumentando que “os poderes devem ser restaurados e respeitados”.
“Os direitos civis, a liberdade e a segurança de todos os membros da Assembleia Nacional, incluindo os do seu presidente, Juan Guaidó, devem ser reconhecidos e totalmente respeitados”, frisou, reiterando ainda o apelo para eleições livres.
Juan Guaidó autoproclamou-se na quarta-feira Presidente interino da Venezuela, perante milhares de pessoas concentradas em Caracas.
Os Estados Unidos, a Organização dos Estados Americanos (OEA), a maioria dos países da América Latina, à exceção de México, Bolívia, Nicarágua e Cuba -- que se mantêm ao lado de Maduro, que consideram ser o Presidente democraticamente eleito da Venezuela -, já reconheceram Juan Guaidó como Presidente interino da Venezuela.
Rússia, a China, a Turquia e o Irão manifestaram também o seu apoio a Nicolas Maduro.
Da parte do Governo português, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, expressou na quarta-feira pleno respeito pela “vontade inequívoca” mostrada pelo povo da Venezuela, disse esperar que Nicolás Maduro “compreenda que o seu tempo acabou” e apelou para a realização de “eleições livres”.
A Venezuela, país onde residem cerca de 300 mil portugueses ou lusodescendentes, enfrenta uma grave crise política e económica que levou 2,3 milhões de pessoas a fugir do país desde 2015, segundo dados da ONU.