Medo e dependência

Se dessem soluções, e não mentiras, o povo não se interessaria pela política?

22 Abr 2017 / 02:00 H.

“Povo Superior” foi um rótulo de emancipação do ilhéu para ganhar auto-estima e confiança, colocando assim o “mundo” insular no mapa nacional. Por doses cavalares no discurso político, tornou-se um entrave ao próprio crescimento desse Povo que vagueou pelo convencimento sem tino na comparação e na dimensão, logo no discernimento. Viviam a contento com o título enquanto alguns se serviam dele.

O Povo Superior tem falhas graves e necessita de um “upgrade” que corrija o medo e a dependência. Mais do que um peito cheio, necessitamos de uma sociedade corajosa e livre dos esquemas da política, onde se incute o medo de perder, de estar privado ou dependente de sustento perante uma aprovação que atrofia a vida. Estamos numa região demasiado politizada onde a decadente classe política concebeu um sistema que usa o expediente para obter o pedido de cunha que, assim, lhes credita um favor a cobrar, o voto. Os políticos que não convencem pelo discurso usam a manipulação dos medos e das dependências para comprar os eleitores pela necessidade.

Uma nova emancipação pode agora integrar o ilhéu no mundo. Se mantiver o medo, será ilha, viverá uma vida condicionada pela cleptocracia que anula os seus sonhos. A emancipação usará a democracia para se dar ao respeito. Ou pensa como ilhéu ou pensa como parte do mundo. O episódio mundial do busto disse-nos que os esquemas da fórmula regional de sucesso não obtém resultados extra ilha. Tivemos publicidade, sim, negativa. Se insistirmos, passam-nos o cilindro sem contemplações ou tabus, e muito menos com medo ou dependência. E se era o Centro Internacional de Negócios? E o ferry que mandamos embora e agora não regressa? Um passo em falso e estamos marcados.

O medo, força motriz do terrorismo, é também promotor de alguma sociedade regional que pula e avança moldando a democracia, esse teatro político dito civilizado onde tudo se alcança e do qual muitos temem perder alguma coisa ou deixar de estar em estado de graça. Sucumbimos, dia-a-dia, na Autonomia XXI.

Medo é o encontro tácito entre a consciência da vulnerabilidade e a falta de raciocínio. Quem consegue dominar o medo será dono da sua vida e, por isso, é bom estar bem informado para saber lidar com as situações. Os que dominam ou desvalorizam o seu medo criam ascendente sobre os outros, muito apegados a tudo, por vezes a trivialidades que enchem a cabeça, intoxicados pela falsa importância das coisas e das gentes, em conjunturas dúbias ou empoladas do “diz que disse”. Sentir medo, mesmo que seja só apreensão, em votar, significa que o candidato dominante tomou posse do seu direito cívico e que, apesar de viver em democracia, não é livre. Se era isto que queriam referir com o “deficit democrático” foram aselhas. A única coisa que não é livre é o pensamento, o corpo vagueia. Faça como nos telemóveis, desbloqueie, caso contrário passa de eleitor a cúmplice do “tarifário”.

O medo que se apodera das pesadas estruturas governativas, com a cultura da cunha e não do mérito, faz dos indivíduos escolhidos por compadrio ou amiguismo selos de pactos de não exigência, tornando as suas instituições disfuncionais e subservientes, sem autoridade para impor regras, sendo antes um pró-forma que nos conduz a obras inconcebíveis, a falências e a fífias de gestão. Quando juram, se juram, por sua honra nas investiduras, juram a quem de facto? O medo é a nossa pequenez e resulta em dependência. É natural que os mais capazes sejam marginalizados. Deixe-se de condescendência, permissividade, tolerância e também de inércia gratuita na democracia, seja exigente. Só cresceremos, enquanto sociedade, por liberdade de pensar e agir, pelo fruir e fluir das ideias, ditas sem medo e conjugadas para o interesse de todos.

Nos Estados Unidos, a eleição do “artista” Trump, com tudo o que representa, encontra nos pilares legislativos e judiciais o garante da firmeza da democracia americana que funciona. Trump, apesar de presidente, não vai fazer tudo o que pretende. Com este raciocínio estamos de volta à pequenez da nossa Autonomia XXI. Se, e só se, tivermos um dia um governo ditador, incompetente, de situações insanas ou corrupto como seria? A Assembleia Legislativa Regional mostrar-se-ia independente e fiscalizante? Teria parlamentares fidedignos? Ou teríamos escolhidos para fazer exactamente o contrário? E o poder judicial seria imune às pressões, às proximidades e aos relacionamentos com o poder político que também lhes dá jeitos? Há separação de poderes ou comungam poderes?

A Madeira está a morrer demograficamente com a ausência de oportunidades e consequentemente de rendimento. Os poucos que nascem, formam-se para o êxodo mas ninguém está preocupado. Todos, na aflição mundana, jogam para si no imediato. O medo e a dependência no imediatismo facilitam o nosso fim e não temos qualquer plano para além do salve-se quem puder no jogo da política. Aos que só agora despertam para as duas velocidades, se não três, porque entrou na agenda política, saiba que a da Madeira é de momento uma velocidade encravada, basta ver o que sucede com o essencial e a voracidade dos que estão convencidos de que o seu mundo termina proximamente. Só temos futuro com um “upgrade” sério no povo porque no meio político, governo e oposição, estão acomodados. Oferecer jantares é capaz de ser sintomático da falta de ideias para mobilizar. Se dessem soluções, e não mentiras, o povo não se interessaria pela política?

Apesar das fraquezas da carne e da necessidade, ainda acredito na democracia por não haver meios suficientes que a comprem. Caso contrário, teríamos, em vez de um regime político vocacionado para o atendimento das condições económicas, sociais e culturais, um grupo de patos absorvidos pelo comércio de poder, exclusivo da elite dominante, em tudo o que cria riqueza e que concebe um povo sereno e grato na pobreza.

Carlos Vares

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