Empresários denunciam “perseguição policial” devido a subida de preços na Venezuela

17 Jan 2018 / 08:48 H.

A Federação de Câmaras de Comércio da Venezuela (Fedecâmaras) denunciou que os empresários estão a ser alvo de “perseguição policial”, devido à subida dos preços, nos últimos dias, que atribuíram à inflação e escassez de produtos.

“Há um combinar de condições que pressionam os preços em alta, mas isso corrige-se com políticas económicas, confiança e aumentando a produção, mas o Governo faz tudo ao contrário, ao adotar medidas que restringem a produção”, disse, na terça-feira, o presidente da Fedecâmaras, Carlos Larrazabal.

Em declarações à Unión Rádio, Larrazabal explicou que os primeiros dias de janeiro de 2018 foram muito complexos para os retalhistas venezuelanos.

“Vimos como a Superintendência para a Defesa dos Direitos Sócio-económicos (Sundde) começou a baixar unilateralmente os preços, sem verificar as estruturas de custos e sem direito à defesa, o que provocou corridas aos supermercados que acabaram com os produtos nas prateleiras, e agora temos graves dificuldades em repor os inventários”, disse.

Larrazabal explicou que estão ainda a ocorrer assaltos a camiões de transporte de alimentos e matérias-primas, situação que tem impedido que os produtos cheguem às prateleiras dos estabelecimentos comerciais, em diferentes localidades do país.

“Se o Governo não dá garantias de segurança nas estradas, para que os produtos de Los Andes (oeste do país) e de Los Llanos (sudoeste) cheguem ao centro do país, se isso não se soluciona e ocorrerem outros ataques, o resultado será mais escassez, mais inflação, mais mercados informais e isso afeta o consumidor, os empregos, os trabalhadores e as empresas”, frisou.

Por outro lado, denunciou que o Governo do Presidente Nicolás Maduro manipula a crise a seu favor, o que agrava a situação.

“Na Venezuela há um mercado cambial que depende de matérias-primas importadas e desde agosto [de 2017] que não há acesso a divisas (dólares para importar) (...) isso faz uma pressão muito grande sobre os preços, mas o Governo não aborda o tema cambial para procurar uma solução”, disse.

Desde 2003 vigora na Venezuela um férreo sistema de controlo cambial que impede a livre obtenção local de moeda estrangeira e obriga os empresários a recorrer às autoridades para obter autorização e conseguir as divisas necessárias à importação. No entanto, são frequentes as queixas sobre dificuldades para obter as autorizações e de que os importadores têm que recorrer ao mercado negro de divisas.

Segundo Carlos Larrazabal, “a única maneira de solucionar o problema da inflação e da escassez é desmontar o sistema cambial e estabelecer um mercado cambial livre”.

“Temos pedido isso reiteradamente, para baixar (o preço) do mercado negro, que faz uma pressão contínua (sobre os preços dos produtos) e isso afeta até as importações do Estado”, frisou.

Por outro lado, explicou que as “medidas de tipo policiais” contra os empresários não solucionam os problemas e que a produção interna é de “apenas 30%”.

“As fábricas estão praticamente paralisadas porque não têm matéria-prima e isso tem que ser debatido”, disse.

O Governo venezuelano ordenou na terça-feira ao setor agroindustrial do país que diminua o preço de venda de 6.500 produtos, e regresse aos valores de início de dezembro de 2017.

A ordem foi proferida pelo vice-Presidente da Venezuela, Tareck El Aissami, durante uma reunião com representantes do setor agroindustrial, em Caracas.

Segundo o vice-presidente, “há 6.500 produtos que aumentaram entre 10% e 10.000% entre 15 de dezembro e 03 de janeiro”.

A 05 de janeiro, a Superintentência de Defesa dos Direitos Económicos (Sundde) obrigou 214 sucursais de 26 redes de supermercados a baixar os preços dos produtos para valores inferiores aos comercializados no princípio de dezembro.

A decisão afetou, entre outras, as redes de supermercados Central Madeirense, Unicasa, Plazas, Excelsior Gama, Luvebras, propriedade de portugueses radicados na Venezuela, que classificaram a medida como “injusta”.

No passado dia 10, após um encontro com o Presidente Nicolás Maduro e no final de uma visita de quatro dias à Venezuela, o chefe da diplomacia portuguesa, Augusto Santos Silva, anunciou que Caracas ia “criar um canal de comunicação com a embaixada de Portugal em Caracas para dar resposta às preocupações, dificuldades e necessidades da comunidade”.

Três dias depois as autoridades suspenderam as fiscalizações às redes de supermercados na sequência de um acordo que permite aos empresários ajustar, em alta, os preços dos produtos que tiveram de baixar, gerando perdas elevadas.

O acordo foi possível, na sequência de uma reunião com representantes da Sundde, organismo que tinha imposto a descida de preços, disseram vários empresários à agência Lusa.

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