“Museu das descobertas” não deve ser apenas celebrativo

12 Out 2018 / 03:42 H.

Um futuro “museu das descobertas”, em Lisboa, não deve resumir-se apenas a uma celebração dos feitos de Portugal no mundo, mas lembrar a violência que envolveu, incluindo a escravatura, defende um académico britânico.

“Portugal, tal como o Reino Unido, têm de reconhecer o seu passado, mas não pode ser apenas de uma forma celebrativa, isso seria errado e desonesto. O Estado português teve um papel ativo no tráfego de escravos”, vincou Sanjay Seth, professor de política e relações internacionais na universidade de Goldsmiths, em Londres.

O académico, que tem também trabalho sobre a história moderna da Índia, é um dos responsáveis do Centro de Estudos Pós-Coloniais da universidade britânica.

É também o orador que vai encerrar o seminário “Decolonizing History. The politics of memory of the last European Empire” (”História Descolonizadora - A Política da Memória do Último Império Europeu”), que se realiza na sexta-feira, na universidade Birkbeck em Londres.

Partindo da recente polémica criada pelo anúncio da criação de um museu das “descobertas” em Lisboa, incluída no programa eleitoral do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, em 2017, o seminário vai abordar outras experiências museológicas sobre o império e do colonialismo, e discutir a necessidade de inserir a história do império português em redes transnacionais de investigação e nas teorias sobre o pós-colonialismo.

Vários dos organizadores e intervenientes foram subscritores de uma carta aberta, publicada em abril no jornal Expresso, em que se manifestam contra a designação de “museu das descobertas”, porque iria “reduzir a riqueza e complexidade dos factos históricos a um só ponto de vista - o português”.

Sanjay Seth, o único interveniente no seminário que não é português, concorda com esta argumentação, porque entende que “descobertas” é um termo eurocêntrico e não reflete as consequências nefastas do colonialismo, afirmou à agência Lusa.

Aludindo ao debate que sobre o passado colonial existe noutros países, nomeadamente no Reino Unido e na Alemanha, este académico com ascendência indiana defende que um projeto deste tipo deve envolver historiadores e programadores de países que sejam abrangidos.

“Este devia ser um espaço de diálogo permanente, não apenas para apontar a culpa, mas para mostrar as diferentes perspetivas”, defendeu.

Num sinal do debate que existe no Reino Unido sobre a questão, o líder do partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, fez hoje um discurso no qual defendeu que o programa escolar deveria incluir a história da civilização africana antes da colonização, sobre “a resiliência e sacrifício daqueles que foram escravizados” e sobre a luta pela independência.

Um dos organizadores do seminário de sexta-feira, José Neves, professor da Universidade Nova de Lisboa e investigador na universidade de Goldsmiths, afirma que o projeto do museu em Lisboa é um resultado da “’turistificação’ da economia portuguesa” e da necessidade de atrair visitantes.

Historiadores como ele próprio estão “hoje, mais do que ontem, relutantes na hora de caucionarem cientificamente o ‘comemoracionismo’ do passado expansionista”, inspirados por movimentos de descolonização da memória pública que têm tido uma expressão significativa fora de Portugal.

“Da minha parte, não vejo propriamente necessidade em criar mais um museu sobre a história nacional. De uma forma ou de outra, a maior parte dos museus que existem em Portugal já são dedicados a isso mesmo”, declarou à Lusa.

No seu lugar, sugere a criação de uma instituição que proporcione uma visão mais plural da história, dando como exemplo interessante os Black Cultural Archives, um centro em Londres dedicado à recolha, preservação e celebração do património das culturas africanas e das caribenhas.

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