Lídia Jorge defende uma literatura que parte do real mas o deforma num outro real

23 Mai 2018 / 04:57 H.

A escritora Lídia Jorge disse que a literatura é “quando parte do real, mas o real é deformado de maneira que se torne num outro real, completamente diferente da realidade”.

A escritora falava na sessão de apresentação do seu mais recente romance, “Estuário”, na Livraria LeYa Buchholz, em Lisboa, e que foi colocado no mercado.

“A literatura, para mim, é quando parte do real, mas o real é deformado de maneira que se torne num outro real, completamente diferente da realidade, aquilo que à luz da redenção toda a história surge naturalmente deformada”, afirmou a autora, já com 11 romances publicados.

“Se os meus livros prometem isto, sinto-me em paz”, atestou.

A autora disse: “A literatura é a nossa segunda alfabetização, se nós perdermos a alfabetização da literatura que é a base de todas as artes e das ciências, a humanidade será muito pobre, e é sobre esse tema, por outras palavras, que este livro fala”.

Lídia Jorge falava perante uma livraria lotada de “amigos”, como disse, entre eles a sua leitora fiel, Conceição Brandão, que veio de longe e que é o leitor que um escritor imagina, aquele que quando o escritor está a escrever pergunta: “Gostarás disto?”.

O escritor Almeida Faria, a quem coube “apadrinhar” o livro, como referiu Lídia Jorge, referiu-se ao romance como “feliz eco feliz de um poema de St. John Pearce que serve de epígrafe”.

Avesso a apresentações, como afirmou, Almeida Faria reivindicou-se de “um tempo em que um autor raramente aparecia em carne em osso, algo hoje impensável por causa das famosas leis do mercado”, mas condescendeu em apresentar “Estuário”, pelo “respeito” que tem pela prosa e a pessoa de Lídia Jorge.

O escritor afirmou que lhe agradou o romance logo pelo título, referindo que a sua escrita está contaminada pela poesia, encontrando-se bastas citações da “Ode Marítima”, de Álvaro de Campos, mas também de um “quase secreto, mas excelente poeta francês”, Philippe Jaccottet, e “até do cerco de Troia narrado pela voz de Homero”.

Almeida Faria, sublinhando o talento de Lídia Jorge, realçou a sua capacidade de “misturar o sério e burlesco” e de se encontrar “um sopro de humor em algumas páginas” referindo como “admirável, na passagem que faz do real para o fantástico”.

A editora Cecília Andrade, das Publicações D. Quixote, que chancelam a obra, referiu-se ao romance como “uma obra inovadora” e “prenúncio de uma realidade futura”.

A escritora, argumentou Cecília Andrade, “ao refletir sobre o presente e o passado, tem a capacidade de ver mais além, de ver o que escapa, em suma, preconiza o que pode surpreender, o caminho para onde o comportamento da sociedade poderá levar”.

A escritora não terminou sem evocar o artista plástico Júlio Pomar, hoje falecido aos 92 anos. “A morte está muito próxima da vida e a vida está próxima da morte. Que este encontro seja uma celebração da sua arte”, afirmou a escritora que pediu em seguida uma salva de palmas para o artista.

O novo romance de Lídia Jorge, “Estuário” sucede a “Os Memoráveis”, uma obra de ficção literária sobre o 25 de Abril de 1974, publicada há quatro anos.

Lídia Jorge estreou-se literariamente, aos 33 anos, e não o fez antes, disse-o hoje, porque queria sentir-se segura que escrevia literatura, que não estava a fazer experiências, nem queria sentir vergonha. “O Dia dos Prodígios” (1980) foi o seu primeiro romance, no qual aborda o período após a revolução de 1974.

A bibliografia da autora, nascida há 71 anos em Boliqueime, no Algarve, inclui títulos nas áreas do romance, conto, ensaio e teatro.

Várias vezes distinguida, alguns dos seus romances foram adaptados ao cinema, como “A Costa dos Murmúrios” (1988), adaptado por Margarida Cardoso.

A escritora nos dias 9 e 10 de Junho, pelas 16:30, vai estar presente na 88.ª Feira do Livro de Lisboa, que abre na próxima sexta-feira.

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