Lugares que são casa
Quando cheguei à rua e a luz de Lisboa me fez doer olhos lembrei-me de que há lugares que são casa, quase na mesma medida do Laranjal
Há lugares que são casa e há outros onde vamos para experimentar o que é ser estrangeiro. E, se for como turista, tanto melhor, queremos só mais uma fotografia e vaga numa fila para visitar um momento ou um museu. Dali, das ruas e dos prédios, das pessoas que passam e das que servem nos restaurantes e nas lojas onde compramos um íman para a oferecer, levamos um ou outro aborrecimento ou uma história divertida sobre como nos perdemos e fomos dar a uma zona escusa e fora do roteiro. Em poucos dias estará tudo acabado e não se pode comparar à vida sofrida de um emigrante cujo alívio para a solidão é a videochamada para casa.
Eu já fui isso tudo, turista e emigrante. Não tenho fotografias de todas as viagens - não entram na conta as que estão desfocadas e dessas tenho muitas - e, no meu tempo na África do Sul as ligações para casa passavam pela Marconi e eram cobradas no destino. O que não muda a memória do quanto me doeu a saudade, nem o medo e a alegria a encher o peito sempre que entrei num avião e fui ver mundo. Às vezes parece-me que foi ontem e, no entretanto, passaram anos. A jovem aflita no aeroporto de Hong Kong ao perceber que quem a vinha buscar não tinha chegado não é bem a mesma pessoa, de trólei e mochila, que, esta semana aterrou em Lisboa e se misturou na multidão nas mesmas circunstâncias.
Enquanto fazia deslizar as rodas da mala até à saída e tentava perceber o que movia aquelas pessoas, dei por mim a tentar classificar o meu propósito e se me podia encaixar na categoria de turista e se a semana era de férias ou outra coisa. Quando cheguei à rua e a luz de Lisboa me fez doer olhos lembrei-me de que há lugares que são casa, quase na mesma medida do Laranjal. A cidade não é a mesma que encontrei quando ainda era a Lina Marta, a filha da dona Celina e do mestre Gabriel, ingénua e romântica, tão certa de que dali em diante o caminho seria a direito e livre de becos sem saída. Foi aqui que me fiz a Marta e escolhi o nome que iria levar pela vida.
Entre o cinema mais barato às segundas-feiras e as tascas onde, por pouco dinheiro, se podia comer de prato do dia pataniscas com arroz de feijão, Lisboa abriu-me as portas de um mundo onde fazia pouca diferença o nome de família, a profissão do pai e o nível de instrução. Da adolescente insegura surgiu uma jovem estranha, com proveniência exótica e a quem, de repente, não faltavam amigos para ir à biblioteca, à cantina ou passear e conversar uma tarde inteira num banco de jardim. Ou sair à noite ou ir um fim de semana à casa de alguém que estava aborrecido e não queria fazer a viagem sozinho. E foi assim que cheguei a Faro a primeira vez e passei o Carnaval em Torres Vedras.
Não foi sempre simples ou fácil, nem mesmo aos 20 anos e, claro, guardo dissabores e más decisões. Lembro-me da noite em que apanhei o avião para a Madeira no fim do curso e da impressão de que me faltava uma parte e como esse sentimento me assombrou durante anos. Ou como as boas memórias me aqueciam nos dias difíceis. Quando parecia que todas as oportunidades de ser feliz estavam encalhadas algures num sítio onde eu não estava, pensava em Lisboa e na ideia de regressar. Nunca regressei, o acaso, a sorte ou seja lá o que for que faz com se viva uma vida e não outra não permitiram. Às vezes penso que devia ter lutado mais e que os 1000 quilómetros de mar me tiraram a coragem para tentar, que me acomodei ao conforto.
E, apesar de todos os desentendimentos e desencontros, do quanto eu mudei e do quanto Lisboa está diferente, estou em casa quando aqui estou, da mesma maneira e com a mesma intensidade que dedico a tudo o que amo, sejam pessoas ou lugares, seja esta cidade cosmopolita ou a curva do caminho onde cresci.