Pobreza em Portugal “conjuga-se no feminino” e tem dimensão significativa

30 Nov 2019 / 03:20 H.

O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (Portugal), padre Agostinho Jardim Moreira, alertou hoje que a pobreza é “conjugada essencialmente no feminino e, em Portugal, esta pobreza feminina tem uma dimensão bastante significativa”.

Esta realidade é visível no caso de muitas mães solteiras, cujos rendimentos -- por ser apenas o seu o único vencimento do agregado familiar -- não são suficientes para as necessidades da família.

Em Portugal, com 2,2 milhões de pobres, a democracia, ainda segundo o padre Jardim Moreira, “não está de boa saúde”, porque há “uma percentagem razoável de portugueses que não conseguem participar no desenvolvimento nacional”.

“Nem ao fim 40 anos depois da Revolução de Abril [conseguem] participar de uma forma digna e onde possam desenvolver seus direitos humanos”, lamentou o presidente da Rede Anti-Pobreza, para quem, “o que está em causa é, de facto, a dignidade das pessoas”.

Jardim Moreira, em declarações à agência Lusa, defendeu que, para alterar esta situação, o caminho pode passar por uma atuação em três eixos, transversal a toda a sociedade.

O primeiro eixo, envolvendo os órgãos de soberania, como o Presidente da República, a Assembleia da República e o Governo, o segundo integrando as autarquias e envolvendo um trabalho em rede dos órgãos descentralizados do Estado nos campos da Saúde, Educação, Habitação, Trabalho e Ação Social, e o terceiro, envolvendo as instituições de solidariedade e a seleção das famílias a intervencionar e a acompanhar por uma equipa transdisciplinar.

“Isto requer uma participação social nova, com intervenção junto da família, um trabalho de persistência, envolvendo paróquias, autarquias locais e instituições”, disse.

Estas propostas já começaram a ser apresentadas ao poder político, segundo o presidente da Rede Anti-Pobreza.

Jardim Moreira, no final de um encontro de associados da Rede Europeia Anti-Pobreza (Portugal), que decorreu hoje em Aveiro, disse que os trabalhos sublinharam a necessidade de “haver mais profissionalismo dos técnicos das instituições do terceiro setor, [com] atualização do conhecimento e [da] metodologia, para que o trabalho corresponda às necessidades das pessoas”.

Também a necessidade de uma maior participação por parte da sociedade civil no apoio ao setor -- “temos uma sociedade onde não há grande tradição de participação e onde muitos são capazes de criticar”, mas não agem para alterar a realidade social -, de preparação de uma cultura estrutura de voluntariado preparado, com competências técnicas, e uma aposta na “transparência na gestão das instituições, sobre o que se faz, como se faz”, foram apontadas no encontro que decorreu durante todo dia.

“Tudo isto requer uma competência de missão muito qualificada”, reconheceu o padre Jardim Moreira.

A Rede Europeia Anti-Pobreza (Portugal) tem cerca de um milhar de associados, entre instituições e particulares.