Por favor não emigrem

18 Dez 2019 / 02:00 H.

Esta “bendita” frase, descarregada no meio dum discurso do Juramento de Hipócrates, em Lisboa, mais parece um “tomahawk”, lançado para cima dos jovens médicos ... palavras revestidas duma dose de mau gosto e cinismo, nunca antes vista ou ouvida numa cerimónia com esta particular natureza. Afinal, o que queria dizer o Sr. Secretário de Estado ... por favor, meus caros jovens médicos, não saiam do país, porque precisamos do vosso trabalho, técnica e altamente qualificado, para podermos cumprir um desígnio e determinação da nossa Constituição - oferecer o apoio na saúde a todos os cidadãos residentes no país, gastando o menor dinheiro possível. Dito isto, sabendo concerteza que as carreiras médicas estão congeladas há 14 anos e os ordenados médicos congelados há 12 ... o Sr. Secretário de Estado teve esta “distinta lata” e ainda foi aplaudido ... sabe-se lá por quem! Acham possível alguém no seu perfeito juízo, aplaudir, estas sombrias, cínicas e tendenciosas palavras?

É mesmo necessário falar em dinheiro ou em ordenados, para explicar, que um estudante de Medicina, faz o seu curso em seis anos, concorre num exame a uma especialidade, passa o teste, inicia o ano comum, depois, segue então para a especialidade ... e passados mais ou menos treze ou catorze anos, torna-se especialista e vai ganhar mil e duzentos euros, líquidos. Impossível não falar em dinheiro! Alguns, também cínicos e críticos de bancada poderão comentar: - Vai estudar Medicina quem quer! Certo! Mas não percebem, que há profissões específica e técnicamente diferenciadas, que não são para todos. Nem todos as conseguem praticar! Não é trabalho comparável, vender um apartamento, fazer um contracto de renda duma casa, vender peixe no mercado ou prestar serviço 24 horas, num Banco de Urgência. Somos todos iguais, é certo, mas executamos trabalhos diferentes, com diferentes riscos, dificuldades, responsabilidades e intensidades. Quem se hospeda num hotel, normalmente está de férias, bem disposto, relaxado, está cercado e integrado por um ambiente idêntico, de relaxação e bem estar. Num hospital, quem lá vai, normalmente está doente, inválido, deprimido, inferiorizado, ansioso ou histérico, moribundo ou em perigo de vida. As profissões nunca serão iguais, muito menos na sua prática! Porque algumas delas exigem, conhecimentos muito precisos, “miolos” organizados dentro da cabeça, compreenção, disponibilidade física e psíquica permanentes, tempo indeterminado ou até infinito, equilíbrio e pés assentes no chão ... mesmo estando escorregadio.

Portugal é dos países da OCDE que tem maior acesso e frequência nas urgências. Porquê? Porque tudo vai “bater” ás urgências! Todos os acidentes: de viacção, de trabalho, desportivos - apesar das Companhias de Seguros serem as responsáveis legais dos mesmos - as doenças oportunistas, súbitas, agudas, os traumatismos domiciliários, etc. Mas, mesmo assim, sendo tão assediados e com carências de técnicos, os Serviços de Urgência resolvem os problemas todos! Com essa agravante em receber cerca de 40 a 50% de casos, que não deviam lá estar. Quase metade das entradas nas urgências, nem urgentes são! Mas, também nos números da OCDE, Portugal consta como um dos países que melhor organiza os serviços de Saúde apesar de gastar, cerca de 1/3 do investimento dos outros países. Só pode ser á custa dos ordenados dos seus técnicos diferenciados, da sua sobrecarga horária e dos seus serviços extraordinários. Ficam assim explicadas, a poupança discriminatória, os bons resultados dos serviços de saúde e o “burnout” dos seus funcionários!

Mas, como parece que a saúde está neste momento num mau estado, vamos - mais uma vez - pedir ajuda aos jovens médicos, os técnicos indispensáveis, para garantir uma mínima dignidade organizativa sanitária do país! Esta é a politica manifesta do governo português.

A Saúde sempre foi uma bandeira da crítica partidária, mas esquecem aqueles que mais criticam ... o problema existe , mas é e será sempre transversal a todos. Não há esquerda nem direita na Saúde! O país e a política partidária deviam estar unidos e muito amigos, para resolver o problema de alguma desorganização ou desintegração do estado da Saúde.

Mas, parte do “mal-estar” na saúde é da responsabilidade de muitos incumpridores, dos maus hábitos, higiénicos e alimentares... fumar, comer errado, sedentarismo, obesidade, alcoolismo, que são exemplos dos incumprimentos. Concerteza, também sabem que 66% das pessoas frequentadoras dos sanitários, não lavam as mãos ... um local público dos mais contaminados do mundo.

E a prevenção? A alimentação adequada e o exercício físico? Zero! O Estado e as Empresas, dão um mau exemplo na prevenção, que pode ser realizada por uma actuação mais adequada na Medicina Geral e Familiar e na Medicina do Trabalho, esta que, teóricamante é obrigatória para todos. As vacinas são muito importantes, mas não chegam. E nem todos as fazem, ... porquê? Taxem a sério tudo aquilo que faz mal e provoca doenças e diminuam os impostos para os praticantes desportivos, sejam federados ou individuais. Continuamos com 15% de praticantes desportivos activos. Conhecemos um bom exemplo, o Japão, que acabou com o cancro do estômago! Fazendo prevenção para despiste desta doença em toda a população, sem descriminação. Custa indiscutívelmente muito mais barato prevenir uma doença do que tratá-la.

Não inventem mais nada ... e copiem todos aqueles, que fazem as coisas bem feitas!

Bom Natal!

P.S. Afinal, ali tão perto em Alverca está a hipótese dum aeroporto complementar á Portela ... mais barato, sem problemas de impacto ambiental, pode ter quatro pistas, acessível ... mas, a “Vinci” deseja o aeroporto do outro lado do Tejo! Sabem porquê? O P.M. que o diga!

José Manuel Morna Ramos