O segredo do “U” invertido

25 Out 2018 / 02:00 H.

Recentemente, foi noticiado um êxito assinalável da cientista madeirense Carina Freitas, com a publicação de um artigo do qual foi coautora, na revista de neurociências mais citada do mundo. Enquanto candidata para o doutoramento na Universidade de Toronto, elaborou, com cinco outros cientistas, um artigo que visa (pelo menos essa foi a minha interpretação leiga da matéria) explicar as ligações entre o ato de ouvir música familiar e os estímulos que esse ato possa causar em várias partes do cérebro.

Fiz o esforço de ler o artigo e não me deixar intimidar pela linguagem científica a qual, obviamente, não domino, mas sim, tentar captar algumas migalhas do saber amplamente presente no artigo, a partir das quais esperei, porventura, chegar a ilações que possam ser de interesse pedagógico.

Existe uma imagem estereotipada e caricata de jovens músicos a estudar, repetindo um motivo, um compasso ou uma frase vezes sem fim, levando insidiosamente os ouvintes (pais, irmãos, vizinhos) a um estado de loucura suprimida. Mas, geralmente, não nos conduz à loucura a audição da uma canção na rádio, três, quatro ou mais vezes por dia, em várias estações – e até experimentamos uma certa sensação de agrado e de participação involuntária na interpretação musical, trauteando, batendo o pé, dando o tato com a cabeça, ou simplesmente sentindo-nos mais satisfeitos e até mais alegres e elevados por razões que quase nunca nos passa pela cabeça querer identificar ou explicar.

O efeito do “agrado” derivado da “familiaridade”, da exposição repetida a padrões melódicos, rítmicos, harmónicos, tímbricos e tantos outros, com os quais o nosso corpo se “harmoniza”, seja por via auditiva ou motora, foi explicado como o princípio pelo qual, quanto mais ficamos expostos a uma experiência, mais acabamos por gostar dela. No entanto, depois de uma primeira fase de gosto aumentado, e depois de um certo número de repetições, acabamos por começar a sentir o desagrado a até desgosto (o padrão de “U” invertido).

Existe também a hipótese de a repetição de trechos musicais aumentar a capacidade de ouvinte de antecipar automaticamente aquilo que se segue, até sem atenção particular. Assim, o ouvinte acaba por interiorizar a música como uma unidade que suprime o pensamento consciente e aumenta a participação corporal.

A capacidade de memória semântica, acumulada ao longo da vida, resulta em nossa capacidade de, ao ouvir melodias do passado e da infância, reviver memórias associadas à mesma altura da nossa vida. E claro, Marcel Proust já sabia de tudo isso, pelo menos em termos de olfato.

Os resultados do estudo demonstram, no entanto, que a “familiaridade” não é ligada tanto aos centros de emoção e recompensa no cérebro, como se podia expectar, mas sim numa área que é habitualmente associada ao processamento de tal memória semântica musical indicando que, talvez, nos vamos primeiro ao nosso “jukebox” (que me perdoem os cientistas) interno de memória semântica e tiramos daí os episódios do passado.

Voltando à imagem do nosso jovem músico que insiste em repetir um trecho até ficar perfeito, podem então acontecer duas coisas: ou, num momento crítico, o jovem vai acabar por dominá-lo ou, igualmente possível, depois deste momento passar sem fruição, vai começar a crescer uma resistência interna dentro dele, resistência à peça, ao instrumento, ao professor, à escola e, lamentavelmente, por associação, à música. E será que isso acontece só na música? Que pedagogo (e que pai/mãe) não se encontrou numa situação dessas, quando repetimos certos comentários e de repente parece que batemos numa parede invisível e cada insistência seguinte acaba numa rejeição ainda mais teimosa?

Qual o segredo para nos conseguirmos manter, enquanto estudantes eternos e professores da música, enquanto estudantes eternos e professores da vida, do lado ascendente desse “U” invertido, e conseguirmos possuir o discernimento para mudar a atitude, alterar a abordagem, inverter o paradigma, antes de chegarmos ao ponto sem retorno? Enquanto ainda podemos associar as experiências educativas e pessoais com as sensações e os sentimentos positivos, enquanto a onda é ainda de construção e produtividade, em vez de destruição e desespero?

Claro que não há uma resposta certa, e que cada um vai acabar por ter (ou não) a sua própria resposta, mas, certamente, sempre nos vamos beneficiar com mais criatividade, mais adaptabilidade, mais flexibilidade e mais empatia. Pois, sentir o momento quando a repetição passa de mãe a madrasta malvada da aprendizagem é tanto um dom como também fruto de muita humildade nascida da experiência.

Robert Andres

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