Não têm que agradecer

Não há ‘obrigado’ que lhes valha. Antes um ‘mea culpa’ e um incontornável pedido de desculpas

09 Jun 2019 / 02:00 H.

Passadas que estão as primeiras das três eleições deste ano frenético houve quem se vangloriasse com resultados para os quais não deu qualquer contributo, quem não percebesse quanto vale realmente em termos eleitorais, quem se contentasse com pouco e quem denotasse dotes de vidente. Houve de tudo e até quem se apressasse a agradecer o voto, pelos vistos inesperado, com cartazes.

Poupem-nos à hipocrisia. Libertem-se dos formalismos doentios e do vazio que vai alimentado modas e narrativas alternativas. Uma coisa é boa educação, que se recomenda, outra é a esperteza saloia, destinada a condicionar votos através de manobras estupidificantes mascaradas de gratidão que, como se sabe, não existe em política.

Não será com mimos de circunstância, electrodomésticos ou viagens de um dia ao areal que a Madeira terá futuro. Não é com a infiltração das máquinas partidárias dominantes em festas populares e com o transporte cirúrgico de doentes até às urnas que a Região dará um salto civilizacional. Não é com palmadinhas nas costas e louvores oportunistas que se compram decisões vitais. Até porque, fartos de promessas e de inércia, de amuos e de represálias, continuamos sem poder agradecer a quem quer que seja.

Exemplos transversais recentes de ingratidão, incoerências, atrocidades e incompetências não faltam.

1. Não é verdade que o governo regional pague “atempadamente”, mesmo que alguns privilegiados do regime se gabem de receber sem demoras, os mesmo que por vezes beneficiam descaradamente de “pagamentos antecipados”. Se for preciso, o DIÁRIO prova como o executivo madeirense discrimina, trata diferente o que definiu ser igual e contribui para situações que podem “consubstanciar um favorecimento ao privado”. Tenham vergonha os que em sede de comissão de inquérito parlamentar mentem, tratando os madeirenses como parvos, e os que nos gabinetes do poder empapelam o que já devia ter sido despachado. Nada que um ‘fact check’ diário não ponha tudo em pratos limpos.

2. Para tirar a Saúde regional do estado de coma profundo, não basta assumir que o sector será a “prioridade” da governação. Importa ser consequente. Mais do que entrevistas sem nexo e convenções repetitivas, se o PS alguma vez chegar ao poder e quiser “fazer diferente”, em vez de mais infra-estruturas numa ilha que tem centros de saúde por todo o lado, deve focar-se em operacionalizar o que não funciona, em gerir bem o que tem sido tratado com amadorismo e investir milhões em recursos humanos, dignificando os profissionais que sempre deram o melhor que sabem, atraindo novos talentos e especialistas, formando equipas capazes de reforçar a confiança num serviço obstinado pela qualidade e excelência.

3. Custa ver uma apetência fulminante pela violação de leis. E menos compreensível é quando perpetrada por quem devia conhecer a Constituição. Sancionar sem ouvir, expulsar sem que haja processo disciplinar, julgar sem provas e suspender por capricho, para além de ficar mal aos ditadores, gera injustiças e fenómenos de vitimização, com repercussões eleitorais.

4. No debate sobre as acessibilidades ficou “um segredo” por revelar no que toca a transportes entre a Região e o Continente. O JPP queria que o Governo o desvendasse até ontem. Hoje é domingo e nada. Contudo, se há assunto onde não há segredos é neste. Tudo é simples. Pela incapacidade de uns e chantagens de outros, ou a República assegura a continuidade territorial ou nada feito. A Autonomia faz de conta nesta matéria decretou a sua insignificância.

5. A credibilização da classe política regional não se faz com a coméstica importada. Mais do que contratar consultores especialistas em falsidades e branqueadores de dentes e de ideias, numa altura em que já se fazem convites, não descurem as propostas realistas, a intensificação da correcção das desigualdades e uma nova aragem proporcionada por “políticos confiáveis”. Como alertou o Presidente da República, no início deste ano, convém que os escolhidos façam a correcta avaliação as sua capacidades e méritos no caso de se assumirem como candidatos.

Já na altura, Marcelo notava “arrogâncias intoleráveis, promessas impossíveis, apelos sem realismo, radicalismos temerários, riscos indesejáveis”. O que não dirá agora perante a “teia”, feita de crimes de peculato, corrupção e recebimento indevido de vantagem, acusações feitas a autarcas num País em que 15 presidentes de câmaras foram constituídos arguidos nos últimos dois anos, ou perante negócios que indiciam favorecimento?

Não há ‘obrigado’ que lhes valha. Antes um ‘mea culpa’ e um incontornável pedido de desculpas. E nalguns casos demissão, mesmo que tardia.

Ricardo Miguel Oliveira
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