Fechado sobre si mesmo

Este governo não dá nenhum sinal de abertura ao exterior, aos independentes

20 Out 2019 / 02:00 H.

Roça o anedótico o que assistimos nesta última semana na frente política. Mesmo antes do governo ter tomado posse já andava na rua a frenética dança das cadeiras, com a mira apontada aos lugares cimeiros da administração pública regional, sem qualquer pudor, sem qualquer reticência nem recato.
‘Nada de novo no Reino da Dinamarca’! O elenco governativo foi debatido e conhecido antes do Representante da República ter tido conhecimento oficial do mesmo. Formalismos para quê? Importa continuar a governar com os ‘amigos’ na linha da frente. Tira-se dali, coloca-se acolá. O antigo secretário das Infra-estruturas vai liderar as Águas e Resíduos. Por que motivo? Ninguém sabe e poucos querem saber. Rita Andrade passa da Inclusão para o IASAUDE, mesmo sem habilitação para tal. Qual é o problema? Segue-se pelo caminho menos óbvio e muda-se a lei, pois claro. Paula Cabaço sai do Turismo, depois de ter sido vexada no Instituto do Vinho e do Bordado, com todos os indicadores a bater no fundo e com o sector à deriva e segue para a administração dos Portos. Normal...O ex-director regional dos Assuntos Europeus – alguém lhe conhece obra? – segue para a Habitação, cuja administração passa de três para cinco membros. Normalíssimo. A dirigente que mandava no IHM, por sua vez, salta para o Instituto de Emprego. Obviamente que as políticas de habitação são transversais com as novas funções, mas o mais importante é ter currículo partidário e ter marcado sempre presença no Chão da Lagoa.

Os casos são tantos que ocupavam esta página inteira, mas seria penoso para o leitor. O que podemos concluir de toda esta esquizofrenia política é que pouco importa a qualificação profissional dos titulares dos cargos públicos. Pouco importa se têm ou não currículo na gestão de empresas, se têm caminho feito ‘cá fora’. Importa sim que sejam fiéis aos líderes, que não levantem problemas ao partido e que não escrevam opiniões embaraçosas. ‘Roma não paga a traidores’ e isso aplica-se na perfeição ao actual estado de coisas na Madeira que acaba de sair de um acto eleitoral que não viabilizou nenhuma maioria absoluta. E o que faz o CDS? Apressa-se a colocar os seus, claro está. O azul passa também a figurar na orgânica oficial. Dá para os dois. Se não houver vaga acrescenta-se umas cadeiras à mesa, que a ‘rapaziada’ não pode andar à solta.

Este governo não dá nenhum sinal de abertura ao exterior, a pessoas competentes que não tenham filiação partidária. Todos os lugares de decisão são preenchidos por gente da ‘máquina’. Penso que é caso único no país e na Europa. O PSD-M está vergado pelo peso do carreirismo, não apresenta ideias novas, nem mobiliza projectos sociais. Está fechado sobre si mesmo.

E enquanto se assiste a esta voracidade colectiva pelos lugares de topo da administração ficamos a saber que uma das primeiras medidas tomadas pelo novíssimo executivo prende-se com a arte de comunicar. A partir de agora a comunicação passa a ser coordenada pela presidência do governo. Mas não é isso que deve acontecer em todos os executivos, promovendo uma comunicação competente, clara e imparcial que não beneficie uns em detrimento de outros?

Roberto Ferreira
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