Via-Sacra cumpriu ritual pascal com novo Jesus

Pico da Torre encheu para assistir à representação e recordou as vítimas do acidente do Caniço

19 Abr 2019 / 13:04 H.

Foram muitas as pessoas que se deslocaram esta manhã ao Pico da Torre em Câmara de Lobos para assistir à Via-Sacra representada pelo Grupo de Jovens e pelo Grupo de Acólitos da Paróquia de Santa Cecília, em colaboração com os de Escoteiros. O ritual pascal repetiu-se pelo 25.º ano com algumas pessoas a emocionarem-se com a história, que teve como protagonista um ‘novo’ Jesus. Mais do que um espectáculo, a organização quis proporcionar um momento para reflectir sobre a vida humana e recordou também as vítimas do acidente no Caniço.

Por detrás da caminhada de Jesus até à morte, crucificação e enterro ouve um grande trabalho de preparação. “Foi um orgulho enorme depois de quatro anos poder fazer o papel de Jesus”, confessou Ricardo Bonifácio, que nos próximos quatro vai assegurar a representação do personagem principal. Começou a preparar este dia há três meses, há um mês e meio começaram os ensaios, a par da confecção dos adereços e cenários que também são da responsabilidade dos cerca de 70 elementos que entram na representação.

Ricardo tem 17 anos, faz parte da Oficina de Teatro do Estreito de Câmara de Lobos, a OFITE. “Obviamente que ajuda, já tenho o hábito de encenar”. Aliás a qualidade da representação foi um dos aspectos referidos pelo público como melhor de ano para ano. Mais difícil, conta “são os movimentos e atitudes que Jesus tem de ter, por exemplo, quando é chicoteado, ou quando está na cruz. Estar lá a fazer de morto é um trabalho extremamente difícil, é um trabalho de força, de resistência”, confessou.

Duarte Pereira é um dos mais antigos elementos, é um dos responsáveis pela organização, está quase desde o início do projecto há 25 anos. Também ele refere o grande trabalho por detrás dos quase 90 minutos de dramatização. O grupo tem a preocupação de adequar as encenações à época, com roupas e cenários, mas também de ir adaptando os textos à actualidade. “É uma maneira de nós pensarmos que a Bíblia não está desactualizada, está sempre actual nos nossos dias, embora possamos usar outras formas e outra linguagem”.

O porta-voz explica que ano após ano vão acrescentando coisas novas, enriquecendo o trabalho. Os textos mudam consonante o evangelho e fora deles é o padre Francisco Caldeira quem concebe a mensagem, que acompanha cada uma das estações da Paixão de Cristo. Este ano o evangelho foi de São Lucas. O grupo representou A entrada triunfal de Jesus Cristo em Jerusalém; Os ensinamentos essenciais de Jesus; A Última Ceia e o Lava-pés; A condenação de Jesus e as suas causas; A caminhada para o Calvário; A crucifixão e a morte de Jesus.

“Nós notamos uma grande evolução no trabalho que vem sendo feito, nós somos todos amadores”, referiu Duarte Pereira em balanço aos 25 anos de representação da Via-Sacra. “Sobretudo há uns anos para cá, a nível dos figurinos, das estruturas, estão mais adequadas à época em que Jesus viveu. (...) Sem sermos profissionais, isto está a ficar mais profissional, podemos dizer assim”.

O porta-voz confessa que é a fé que os move. “O que faz estarmos cá é porque nós estamos já ligados à paróquia, acabamos por transmitir essa fé cá na Via-Sacra”. E explica que é como uma catequese, “uma outra forma de evangelizar”. Acredita que a maior parte das pessoas que lá vão assistir vão pela fé. “Umas podem vir peça encenação, mas 90 e tal por cento vem pela fé e pela Sexta-Feira Santa. Para algumas pessoas, se não vierem, parece que a Sexta-Feira Santa já não é a mesma coisa.”

O grupo acordou às 5h30 para preparar a encenação que começou quatro horas depois. “As pessoas não têm ideia do trabalho que isto dá”, disse.

O padre Francisco Caldeira está desde o início no projecto. Explica que o que muda é o que vai para além dos evangelhos. “O que nós temos são ângulos e formas de ver a vida e os evangelhos diferentes, de acordo com contextos de cada pessoa humana e dos contextos actuais da nossa humanidade”. Na opinião de Francisco Caldeira, as pessoas vão ano após ano ao Pico por tudo: “Nós não queremos que seja um espectáculo, conforme dissemos, queremos que seja mais uma expressão daquilo que é a nossa vida”.

Os jovens aderem com facilidade, até porque já há um caminho percorrido. O facto de ser uma paróquia com muitos, jovem do ponto de vista demográfico, também faz a diferença. “Além disso há movimentos que os acolhem, escoteiros, acólitos, grupos juvenis, em que eles se sentem integrados e sentem que a comunidade também é deles”.

Acredita que a fé continua presente em várias formas, desde o enfrentar os problemas da vida ao compromisso com o próximo e com a humanidade. O homem sem fé, disse o padre, citando Nietzsche, “é uma pessoa perdida na história”. “As expressões da fé mudam com a História e estão a mudar, mas creio que uma pessoa sem fé é uma pessoa sem futuro”.

No final da Via-Sacra desta manhã houve ainda oportunidade para o padre Francisco Caldeira recordar as vítimas do acidente do Caniço e com os presentes rezar por elas.

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