Festa de Santana
Ao ver Santana a engalanar-se para o arraial que se avizinha, acenou-me bem lá do fundo do meu baú de recordações, uma velhinha lembrança com mais de sessenta anos de idade, relembrando-me a festa de Santana dos meus tempos de menino.
Sábado, ultimo fim-de-semana de Julho, soava na torre da igreja a primeira badalada do meio-dia, accionada pela mão do sineiro, no impacto do badalo contra o sino e o dim-dlão a se ouvir de imediato.
Como ainda hoje acontece, rebentava o primeiro foguete, a seguir mais outros até chegar aos vinte e um (uma salva), seguidamente a girândola.
Simultaneamente no adro da igreja a banda tocava o hino. Acabada a girandola, nós a pequenada do sítio, corríamos a apanhar as canas dos foguetes, porque estas continham matéria-prima para nós próprios construirmos os nossos brinquedos. Algum tempo após esta pequena tarefa, eu corria para o adro da igreja, para ver o primeiro cenário da festa, ornamentação com buxo e novelos (hortências) naturais. Duas bandas filarmónicas animavam o ambiente, ainda com muito pouca gente a assistir.
Tinha começado o arraial. O cheiro dos ramos de loureiro verde, que davam forma às barracas, mais o cheiro das flores naturais da ornamentação, caracterizavam aquele ambiente.
Pela tarde, a festa começava a engrossar quando começavam a chegar os forasteiros vindos em excursões dos diversos pontos da ilha. Mais à noite chegavam outros forasteiros vindos a pé das freguesias vizinhas, alguns de machete na mão acompanhado de outros instrumentos, já faziam festa pelo caminho.
Avaliava-se a dimensão do arraial pelo número de vacas mortas, pelo tempo que demorava a girandola e o número de autocarros que transportavam os excursionistas.
Quando se atingia um número de vinte e cinco vacas mortas e os autocarros andavam pelos trinta, já era um arraial de peso.
Os naturais da freguesia também começavam a chegar ao cair da noite, porque sendo numa freguesia predominantemente agrícola, havia afazeres a realizar. Só se ia para o arraial depois de “acomerar” o gado e se possível deixar alguma comida para lhes deitar no dia seguinte, para que ficasse o dia livre para disfrutar da festa.
Numa aldeia onde ainda não tinha chegado a luz eléctrica, era um sonho de miúdos e graúdos, ver aqueles milhares de luzinhas acesas à noite, alimentadas por um gerador. Nós os putos de calça curta, em volta desse mesmo gerador aquecíamos as pernas, já que este irradiava algum calor.
Lá bem no alto dum carvalho um altifalante reproduzia canções do Max, ( a mula da cooperativa, o papagaio, o magala e outras), emitidas por um gramofone alimentado por uma manivela.
A filarmónica do Faial e a de Santana continuavam a animar o arraial e por algumas vezes disputavam-se as duas. Os simpatizantes de cada banda, juntavam-se ao respectivo coreto a apoiar a sua preferida.
Nunca me apercebia de quem ganhava a disputa.
Eu também dava palmas à banda de Santana, porque via os outros darem e se calhar as outras pessoas faziam-no da mesma maneira, porque ninguém percebia de música ali. Lembro-me de um dos apoiantes da banda de Santana, o Agostinho Gomes, subir ao coreto com um garrafão de cinco litros cheio de vinho, que debaixo duma ovação de palmas ia distribuindo o vinho pelos músicos.
Alheios a este ambiente, os muitos balharicos iam-se encontrando e desencontrando arraial dentro, durante toda a noite.
Entre as cantorias da festa, chamava-nos atenção, o Poeira de São Jorge a cantar e a tocar sozinho o seu bexigoncelo, por ele construído a partir duma bexiga de porco.
O assalto às massarocas dos terrenos agrícolas das redondezas, feito pelos forasteiros da cidade, acabava muitas vezes em desacatos com os agricultores seus proprietários.
Quase acabava mal uma brincadeira do Vasco numa noite em pleno arraial, quando fez rebentar bem lá no fundo do corgo, um forte petardo por ele fabricado, sem oferecer qualquer perigo, mas que chamou a atenção de toda a gente, como era sua própria intenção.
De seguida pegou num falso petardo, que só continha o rastilho e logo depois de o ter accionado, numa inadvertência fingida deixou-o cair das mãos no meio da multidão.
Gerou-se pânico porque o povo desconhecia a potência daquele engenho, que era de maior volume do que o anterior. Houve atropelos e consequentes lesões, mas o petardo não explodiu, por não conter matéria explosiva.
No entanto o Vasco teve de fugir, sob pena de ser linchado ali.
Conforme íamos caminhando em passeata naquele ambiente festivo, Inalávamos um tal perfume muito agradável da fruta fresca acabada de colher, (toda ela biológica) vendida em quase todo arraial, fazendo parte do cheiro característico da festa.
A título de curiosidade apraz-me dizer, que não era cobrado qualquer tipo de imposto pela venda dessa fruta. Algumas vezes eu e o meu irmão, fomos vender o nosso cestinho de ameixas a mando da nossa mãe, mas nunca nos apareceu fiscal nenhum.
Sem discotecas, sem outros quaisquer eventos, que aproximassem os rapazes das raparigas, era nos arraiais que os jovens aproveitavam para uma troca de olhares, que poderiam resultar em namoro ou não e, este arraial não era excepção.
Como morávamos perto da vila, eu acordava no domingo de manhã ao som dos balharicos, que se mantinham desde a véspera e estavam para durar, porque o arraial continuava por todo o dia, até noite dentro.
Alguns minutos antes da meia-noite, era dado o alerta que o arraial ia terminar; apagavam-se todas as luzes por alguns instantes, volta-se a acender e, à meia-noite apagava-se definitivamente, deixando aquela vila em total escuridão voltando à pacatez habitual.
Para minha tristeza, acabava-se o arraial, na esperança que para o ano havia mais.
José Miguel Alves