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Coreógrafo Steve Paxton espera que o seu legado suscite “novas descobertas”

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O coreógrafo e bailarino norte-americano Steve Paxton acredita que o seu trabalho de exploração do movimento do corpo humano continua a ser sinónimo de investigação na dança, e espera que “suscite novas descobertas”.

Paxton, atualmente com 80 anos, virá a Lisboa para presenciar um vasto ciclo que lhe é totalmente dedicado, organizado pela Culturgest, a partir de 09 de março, com performances históricas, conferências e uma exposição.

O programa visa demonstrar a transversalidade do seu trabalho que deixou marcas a nível internacional, incluindo na chamada Nova Dança Portuguesa.

Entrevistado pela agência Lusa por correio eletrónico, Steve Paxton mostrou-se surpreendido com esta iniciativa, em Lisboa: “Em teoria, é divertido, e, para mim, um ensinamento de como o meu trabalho é percebido”.

Ao longo das últimas seis décadas, a obra de Steve Paxton, nascido em 1939, e com carreira iniciada nos anos 1950, tem moldado continuamente a face da dança.

Dançou com José Limon e Merce Cunningham, foi um dos fundadores do Judson Dance Theatre, origem de criações coletivas que lançaram as raízes da dança pós-moderna, e membro fundador do coletivo de improvisação nova-iorquino Grand Union.

Questionado sobre o impacto e dimensão do seu trabalho em todo o mundo, na comunidade da dança, e especialmente, em Portugal, o coreógrafo acredita que o seu trabalho “ainda representa a investigação” nesta área.

“Se for assim, espero que o meu trabalho represente, não apenas as minhas descobertas, mas também a ideia de explorar o movimento do corpo humano com novas descobertas em vista. A dança é um dos poucos instrumentos que temos para conseguir concretizar isso”, sustentou.

Steve Paxton, que vive, desde a década de 1970, numa comunidade artística no norte de Vermont, nos Estados Unidos, escreveu extensamente sobre movimento - mais de 100 artigos nos últimos 50 anos -- e atuou em espetáculos de dança improvisada por todo o mundo.

O trabalho coreográfico de Steve Paxton é considerado pelos especialistas uma das referências fundamentais das práticas de movimento contemporâneas, atravessando toda a dança que se segue ao coreógrafo norte-americano Merce Cunningham.

Sobre como vê a apresentação das suas peças históricas ainda nos dias de hoje - a Culturgest vai apresentar, nomeadamente “Flat” (1964) e “Satisfyin Lover” (1967) - o criador disse: “É uma surpresa. Quando eu me interessei pela improvisação, aceitei, como parte do acordo, que o meu trabalho não deixasse vestígios. Mas, por sorte, eu fiz parte de uma geração que tinha o vídeo. Então acabou por deixar marcas”.

Sobre a improvisação - o que foi há 40 ou 50 anos e o que é na atualidade - o coreógrafo disse à Lusa: “Para mim é diferente. Eu movo-me em círculos onde é comum. Por exemplo a improvisação na performance costumava ser algo fora do vulgar. Agora aparece em várias formas. Tornou-se uma opção, a par do contexto da coreografia, ou formas tradicionais. Agora sabemos mais sobre ela, sobre o que nos pode proporcionar, e onde podemos usar um método que seja melhor”.

Na História da Dança do século XX, Paxton esteve continuamente na vanguarda dos movimentos pós-modernos norte-americanos, e desde sempre deixou o caminho aberto à contaminação entre a arte e o quotidiano.

Questionado sobre que figuras da dança mais o marcaram e influenciaram, recordou a cena da dança em Nova Iorque, quando jovem: “Havia muitas pessoas que pensavam a dança de forma profunda, e faziam trabalhos muito bons, ou que mais tarde se tornaram especiais para mim. Por vezes uma coreografia pode fazer-nos mudar de ideias”.

“Mas, claro que você quer saber uma só figura, e uma resposta simples, portanto vou dizer Merce Cunningham. Ele era um professor soberbo e um coreógrafo radical. Foi uma honra dançar na companhia dele”, disse.

O trabalho de investigação de Paxton tem vindo a influenciar coreógrafos e bailarinos, nomeadamente no campo da análise e integração de movimentos quotidianos: como caminhar, a importância do tato, do peso e do balanço e a abertura ao corpo não-técnico.