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O Hulk penteadinho da política portuguesa

Ele berra “vergonha!” com a dicção cuidada de quem decorou o texto no camarim

Há uma imagem que descreve na perfeição o fenómeno Ventura: um Hulk bem penteado. Por dentro, fúria pronta a rebentar ao mínimo pretexto — indignação moral em modo turbo, dedo apontado, decibéis no máximo, aquele ar de quem está prestes a rasgar a camisa a meio de uma entrevista da noite. Por fora, gravata impecável, discurso ensaiado ao milímetro, sorriso de quem sabe exatamente quando a luz vermelha da câmara acende e fala para casa. É a fera domesticada por um blazer de boa alfaiataria — o monstro com corte de cabelo de conferência de imprensa e laca suficiente para aguentar uma tempestade tropical.

E funciona, goste-se ou não, vote-se nele ou não. O verdadeiro Hulk destrói tudo à volta e depois não se lembra de nada, acordando em cuecas nos escombros sem saber como ali chegou. O nosso Hulk português destrói a narrativa alheia e lembra-se de tudo — sobretudo de repetir a mesma frase três vezes, em três canais diferentes, três noites seguidas, com a mesma entoação, até ela deixar de ser opinião e passar a ser facto consumado no imaginário coletivo. Se não, vejamos: “Decência”, atirou ele sobre o caso Luís Neves, com o verde radioativo quase a espreitar por trás da lapela. Não precisou de rasgar roupa nenhuma: rasgou, isso sim, o enquadramento do adversário — e sem sujar a camisa, coisa que o Hulk original nunca conseguiu gerir.

O talento genuíno — porque existe, e fingir o contrário seria desonesto, por muito que possa custar admitir — está exatamente nesse contraste calculado ao pormenor. Um Hulk a sério assusta as pessoas e esvazia salas. Um Hulk penteado assusta as pessoas e, ainda assim, continua a ser convidado para todos os programas, todas as semanas, ano após ano, como se fosse o padrinho oficial da grelha televisiva nacional. Ele berra “vergonha!” com a dicção cuidada de quem decorou o texto no camarim, e a fúria, que em qualquer pessoa normal seria simples descontrolo emocional, aqui é vendida como convicção inabalável. É bramido com assessoria de imagem, que por acaso é a do próprio, é gritaria com plano de comunicação por trás, é o monstro com camisa engomada.

O resultado final é este paradoxo: perdeu a corrida a Belém, não tem pasta nenhuma e mesmo assim é sempre ele quem abre o telejornal, porque ninguém dominou tão bem a fórmula mágica “força bruta+apresentação impecável”.

Fúria sem fato é populismo cru, digno de esquina. Fúria com fato à medida é liderança de opinião nacional. Ele escolheu, com muita sabedoria própria, o fato — e mandou fazer mais dois, por precaução.

A ironia final, essa sim deliciosa: no cinema, o Hulk transforma-se de volta em Bruce Banner assim que a raiva passa e tudo acalma. O nosso, esse, nunca desliga — porque aqui a fúria bem penteada não é o efeito especial. É o produto principal, embalado, com fita dourada, pronto a vender-se em qualquer horário nobre.