Fachos, sinal de perigo
Nas encostas do vale de Machico, mais uma vez, se acenderam os tradicionais fachos. Num ambiente festivo de convívio entre vizinhos e amigos, recria-se a história e mantém-se viva a tradição secular que remonta ao tempo em que, em iminência de um ataque de corsários ou piratas, se alertava a população, acendendo uma fogueira (dito facho) que seria avistada ao longo do território como sinal de perigo.
A preparação deste momento começa muito antes do seu acendimento, desde a limpeza e mitigação de riscos, com a queima controlada pelos Bombeiros Municipais na envolvente de todos os 10 fachos, até à verificação da estrutura de suporte e o desenhar dos motivos a serem representados. Vão meses de horas de trabalho voluntário de gentes de todas as idades que, nestes dias, não têm cores políticas ou gostos futebolísticos distintos; têm apenas a missão de, no último sábado de agosto, pelas 21:30, acender o facho do seu sítio.
Se, no passado, um facho aceso é sinal de perigo, hoje é sinal de festa, de alegria e de partilha. Mas não será que ainda existem riscos e perigos que merecem alerta?
Hoje, não será seguramente de corsários ou piratas que irão surgir ataques à população, mas, nesta última celebração dos Fachos, já se viu uma invasão, não hostil, mas claramente em modo de prospeção política de um partido que procura as suas conquistas, entenda-se legítimas como quaisquer outros, mas a confundir um acontecimento histórico, que merece ser respeitado e apoiado, com uma arruada, trajados a rigor, com toda a propaganda (vá lá que não se lembraram de levar bandeiras), como se estivéssemos num período de campanha política.
Emito a minha opinião, que é apenas isso mesmo: uma opinião.
Misturar Fachos com política é um desrespeito à nossa tradição. Os fachos não pertencem à Câmara, nem à Junta, não são da Igreja e, certamente, não são de nenhum partido político. Os Fachos são do povo e sempre foram para o povo, num sinal de união e de entreajuda. Precisam de ser apoiados e respeitados; não precisam de disputas de titularidade ou de propagandas políticas.
Todos são bem-vindos à celebração, mas venham por bem e venham com respeito. Não é preciso fato e gravata, até porque não combinam bem com o óleo queimado, mas respeitem a natureza do evento, apoiem e promovam a tradição. Não se faça de algo tão único uma banal propaganda pessoal ou política.
Não existe um dono ou um rei da história ou da tradição. Tirem-se menos selfies para redes sociais, façam-se menos vídeos sensacionalistas e dêem-se meios a estas gentes para que juntos consigamos elevar os nossos Fachos a Património Cultural Imaterial da Humanidade!