Afinal não estavam verdes
E se a inveja for admiração escondida?
“Estão verdes”, disse a raposa.
A raposa vê um cacho de uvas e tenta alcançá-lo. Salta uma vez, outra, insiste. Não consegue. Quando finalmente desiste, afasta-se zangada e diz que, afinal, as uvas estavam verdes e nem valiam a pena.
Passaram mais de dois mil anos desde que Esopo escreveu esta fábula e, em muitas coisas, continuamos a fazer o mesmo.
Não com uvas.
Com o sucesso dos outros. Com a carreira, a relação, o reconhecimento, as oportunidades, o corpo, a felicidade dos outros.
“Também não é assim tão bom.”
“Teve sorte.”
“Devia era contar a verdade sobre como conseguiu.”
“Eu, se quisesse, também conseguia.”
Chamamos-lhe muitas coisas e raramente lhe chamamos inveja. Ou então ouvimos falar de “inveja branca”, uma expressão que me encanita brutalmente.
Admitir “tenho inveja” custa. É uma daquelas emoções que rapidamente confundimos com carácter. Aceitamos dizer que sentimos medo, tristeza, raiva ou frustração. A inveja escondemo-la, até de nós próprios.
E, no entanto, comparar é humano.
O cérebro compara. A comparação social ajudou-nos, ao longo da evolução, a perceber o nosso lugar no grupo, a pertença, o acesso a recursos e a segurança. Hoje, esse mesmo cérebro tem diante de si uma montra praticamente infinita da vida dos outros. Basta deslizar um dedo.
Alguém conseguiu a promoção que desejávamos. Fez a viagem que não podemos fazer. Publicou o livro que ainda não escrevemos. Recebeu o reconhecimento que gostaríamos de ter.
E alguma coisa acontece cá dentro.
A investigação em neurociência mostra que a comparação social desfavorável pode envolver sistemas cerebrais relacionados com a avaliação social, o conflito e a recompensa. Aquele desconforto perante o sucesso de alguém não faz de nós pessoas más. Mas pode dizer-nos qualquer coisa sobre aquilo que desejamos ou sentimos que nos falta.
A questão não é sentir inveja. É o que fazemos com ela.
Podemos fazer como a raposa e dizer que as uvas estão verdes. Desvalorizar quem conseguiu. Procurar-lhe um defeito. Questionar o mérito. Convencer-nos de que nem queríamos aquilo.
Ou podemos fazer uma coisa bastante mais desafiante e poderosa: escutar.
Aquilo que mais nos incomoda no outro pode ser a porta de entrada para alguma coisa em nós que ainda não conseguimos reconhecer. Às vezes, nem rejeitamos verdadeiramente aquilo que vemos. Rejeitamos o desconforto de perceber que também o desejamos.
A liberdade de alguém pode confrontar-nos com a nossa falta de liberdade. A coragem pode lembrar-nos aquilo que continuamos a adiar. O reconhecimento de alguém pode tocar na nossa necessidade de sermos reconhecidos. O sucesso pode acordar um desejo que aprendemos a calar.
Antes de desvalorizar, talvez valha a pena perguntar: “O que é que isto está a revelar sobre mim?”
Porque uma coisa é o que aconteceu. Outra é a história que contamos sobre o que aconteceu.
“Ela conseguiu” pode ser um facto.
“Ela conseguiu porque teve sorte”, “eu nunca vou conseguir” ou “se ela tem sucesso significa que eu estou a falhar” já são interpretações.
E essas podemos questionar.
Em vez de “porque é que esta pessoa me incomoda tanto?”, podemos experimentar outra pergunta: “O que vejo nela que gostaria de ter, viver ou desenvolver na minha vida?”
A inveja começa então a dizer menos sobre o outro e mais sobre nós.
E podemos reconhecer o que sentimos sem transformar a emoção numa acusação. Sentir não é agir. Há um espaço entre uma coisa e outra, e é aí que podemos escolher.
E há uma escolha muito mais interessante do que concluir que as uvas estão verdes: aproximarmo-nos. Com humildade e curiosidade.
“Como fizeste?”
“O que aprendeste pelo caminho?”
“Ensinas-me?”
Isso não nos torna menores.
Há um princípio da modelagem de que gosto muito: observar quem conseguiu determinado resultado e tentar perceber o caminho. Como conseguiu? Que recursos desenvolveu? Que escolhas fez? Que pensamentos e crenças tem? O que posso aprender com essa pessoa e adaptar à minha vida?
Não para sermos iguais. Para aprendermos.
Há uma diferença enorme entre perguntar “porque é que ela tem e eu não?” e perguntar “o que posso aprender com ela?”. Uma deixa-nos presos à comparação. A outra põe-nos em movimento.
Até porque tendemos a olhar para o resultado. Quantas vezes procuramos conhecer os fracassos, as recusas, o trabalho e as dúvidas que existiram antes daquele instante que agora comparamos com a nossa vida inteira?
Por isso, quando a pequena voz aparecer a dizer “também não é nada de especial”, podemos dar-lhe colo. Escutá-la, sem julgamentos.
O que é que estas uvas representam para mim?
E se as quero, o que posso começar a fazer para me aproximar delas?
Se calhar as uvas não estão verdes. Até já devem estar maduras. E o que nos falta não é deixar de as desejar, mas deixar de fingir que não as queremos.
Da próxima vez que o sucesso de alguém apertar qualquer coisa dentro de nós, podemos parar antes do comentário, antes do julgamento. Respirar e reconhecer: “Isto importa-me.”
E depois perguntar:
“Como fizeste? Ensina-me.”
É provável que essa pessoa não nos dê as uvas. Mas pode mostrar-nos onde está a vinha, que caminho percorreu e que ferramentas utilizou. O resto continuará a ser nosso: o primeiro passo, o esforço, a queda, a tentativa seguinte.
O que pode acontecer se, em vez de olharmos para o sucesso dos outros como uma prova de que chegámos tarde, passarmos a vê-lo como uma prova de que é possível?
E, às vezes, a inveja não é um muro. É uma seta apontada para aquilo que, no fundo, ainda temos coragem de querer.