Dominar o crescimento
Há sinais de desfasamento entre a euforia e a capacidade de resposta
Não há semana em que o poder não recorde que a economia da Madeira cresce. O último ‘anúncio’ dá conta de que o feito dura há 64 meses consecutivos. Antes assim.
Contudo, há um desfasamento a ganhar forma. A Região afirma-se próspera, recebe mais pessoas, movimenta mais dinheiro, cria emprego, atrai investimento e aumenta a sua actividade económica. Só que, ao mesmo tempo, multiplicam-se os sinais de que a capacidade de resposta social e de algumas infra-estruturas públicas definha ou não cresce ao mesmo ritmo.
Não é um problema de um sector específico, nem decorre apenas do nefasto aumento dos preços dos combustíveis. É antes um padrão que começa a ser visível em demasiados lugares, com expressões diversas retratadas numa semana de notícias que mostram escusas de responsabilidade na Saúde, infra-estruturas de saneamento degradadas, crescimento dos resíduos, envelhecimento preocupante, dependência de mão-de-obra estrangeira e até uma necessidade cada vez maior de apoio social municipal.
A Madeira não pode medir o seu desenvolvimento apenas pelos indicadores virtuosos e pela quantidade de actividade que consegue gerar com os múltiplos eventos que agenda, com os elogios que acumula ou com as visitas desenfreadas a empresas. Tem também de avaliar, a cada instante, a capacidade que possui para absorver toda a dinâmica empreendida. Mais turistas exigem mais transportes, saneamento, gestão de resíduos, segurança e até o famigerado plano de contingência do aeroporto, que não deveria resumir-se a colchões. Mais emprego exige mais dignidade, habitação e serviços, contemplando melhores salários. Mais idosos exigem mais cuidados e atenção. Mais população activa exige mais saúde, educação e mobilidade. Mais riqueza exige investimento e também instituições desburocratizadas e ágeis, capazes de responder com eficácia àquilo que são céleres a pedir.
Durante muito tempo, crescer foi apresentado como a resposta elementar para evitar dependências. Agora começa a ser necessário cuidar da outra metade da equação, para que a capacidade de resposta não seja descurada.
Acolher mais turistas e continuar a ter equipamentos turísticos fechados; criar mais emprego, mas depender cada vez mais de mão-de-obra que chega de fora e não domina as línguas mais exigidas; aumentar a actividade económica e, simultaneamente, pressionar os serviços públicos; construir mais e descobrir depois que o saneamento, a mobilidade ou os equipamentos sociais não acompanharam tamanha voragem... são sinais de tensão.
Não há aqui necessariamente uma crise que alimente a ‘vontadinha’ local dos que sonham com uma remodelação governamental. Mas uma Região inteligente deve prestar atenção às tendências antes que estas se transformem em problemas.
A Madeira tem demonstrado capacidade para crescer. O desafio da próxima fase será provar que também consegue dominar o desenvolvimento que tem produzido e que lhe dá vantagens. Contudo, se não houver capacidade para gerir qualitativamente toda a equação e acompanhar as diferentes vertentes desse crescimento, o problema está garantido.