Notícias e partilhas nas redes podem inspirar atos trágicos
Desafios que se tornam virais nas redes sociais como o da Baleia Azul (sequência de tarefas perigosas), o do Apagão (sufoco ou perda de consciência) e o de Benadryl (intoxicação medicamentosa) provocaram imitação, sobretudo pelos mais jovens, resultando em alguns casos, inclusive, em mortes.
No entanto, o efeito de imitação como consequência da divulgação de determinados acontecimentos não é uma prática recente, nem muito menos exclusiva das redes sociais. Desde sempre, os meios de comunicação social se regem por critérios éticos específicos no que se refere à cobertura de notícias que podem originar imitação, como a prática de comportamentos autolesivos ou de suicídios, crimes violentos, incêndios, massacres em escolas, etc.
O jornalismo sério tenta focar-se no efeito de superação, que consiste em fazer a cobertura mediática dos acontecimentos trágicos, tendo em conta a forma como se ultrapassou uma determinada situação crítica e se procurou ajuda, omitindo detalhes sobre atos destrutivos que possam induzir a práticas semelhantes.
Contudo, numa procura desenfreada por cliques e aumento de audiência, alguns órgãos de comunicação social tendem a explorar este tipo de ocorrências da pior forma, descrevendo pormenores dos métodos utilizados, mostrando fotografias das vítimas e/ou dos cenários e recorrendo a “clickbait” (títulos sensacionalistas, muitas vezes desinformativos). Tudo isto acaba naturalmente por amplificar o alcance destas notícias, sendo que o risco de imitação também aumenta, pois muitas vezes, sobretudo para jovens ou criminosos, as próprias notícias deixam de ser alertas para passar a ser manuais de instrução ou incentivos a uma determinada prática.
O efeito de imitação, na sociologia e na psicologia, é um fenómeno que pode ser considerado uma forma de contágio social, pois consiste na reprodução de comportamentos observados nos outros. Ocorre quando emoções, comportamentos ou atitudes se espalham por uma rede de pessoas, como se fosse um vírus biológico.
No ecossistema digital atual, onde as redes sociais TikTok, X ou Instagram servem de canais transmissores, a viralidade algorítmica inflama ainda mais o acontecimento, causando choque, indignação e/ou apenas curiosidade, o que ajuda a reter a atenção do utilizador. Para colmatar, cada vez mais, o público deixa de ser apenas recetor da notícia, passando a participar na construção da narrativa, validando, opinando e envolvendo-se.
Como tal, urge que os meios de comunicação social sensacionalistas ponderem se estão a cumprir com as mais elementares regras éticas, optando por noticiar os acontecimentos trágicos que podem ser alvo de imitação numa ótica de prevenção e não com uma lente de espetáculo.
No que concerne às redes sociais, já é altura de estas serem verdadeiramente regulamentadas, para que os algoritmos deixem de privilegiar conteúdos virais.
Finalmente, cabe, a cada um de nós, perceber que, ao partilharmos, nas nossas redes sociais ou entre os nossos contactos, conteúdos que podem ser alvo de imitação, estamos a participar no processo de amplificação, pois quanto mais atenção um acontecimento recebe, maior pode ser a sua circulação. Desta forma, ainda que inconscientemente, contribuímos para a viabilização do efeito de imitação.