Novos aerogeradores vão tornar a electricidade mais barata na Madeira?
Durante a noite de sexta-feira, quem passou pela rotunda da Tabua pôde deparar-se com uma operação pouco habitual. Componentes de grandes dimensões destinados a novos aerogeradores seguiam, com escolta da PSP, para o Paul da Serra.
O transporte integra um investimento da ENEREEM, empresa do Grupo EEM, nos parques eólicos do Loiral III e do Paul. No primeiro serão instalados dois novos aerogeradores, com uma potência conjunta de 7,6 MW. No segundo, cinco equipamentos em fim de vida útil serão substituídos por um único aerogerador, com 3,8 MW. A empreitada dos dois parques foi adjudicada por 19,65 milhões de euros.
Nas redes sociais, nomeadamente no Facebook do DIÁRIO, perante as imagens dos equipamentos, T. Santo (pseudónimo) colocou uma questão simples: “Será que com tanta treta a luz vai ficar mais barata?”
A pergunta olha a um aspecto concreto. Se o vento é gratuito e os novos aerogeradores permitem produzir mais electricidade sem comprar combustíveis fósseis, será que um maior investimento da EEM nas renováveis acaba por baixar a factura paga pelos consumidores?
Para responder à questão é necessário separar duas realidades que, apesar de relacionadas, não são a mesma coisa: o custo de produzir electricidade na Madeira e o preço que chega à factura dos consumidores.
A aposta da EEM na energia eólica não é recente. O levantamento efectuado no arquivo do DIÁRIO encontra referências a aerogeradores e à produção eólica desde finais da década de 1980 e início da seguinte. Ao longo dos anos, os sucessivos investimentos foram justificados, entre outras razões, pela possibilidade de reduzir a utilização de combustíveis fósseis.
É também esse um dos objectivos dos investimentos agora em curso. No Loiral III haverá um sobreequipamento com dois aerogeradores, num total de 7,6 MW. No Paul, trata-se de um reequipamento: cinco aerogeradores de 0,66 MW, que já ultrapassaram a vida útil, dão lugar a um equipamento de 3,8 MW. Em ambos os casos, a produção eólica permitirá evitar parte da electricidade que teria de ser obtida recorrendo a outras fontes.
O mesmo princípio é ainda mais evidente no Porto Santo. A EEM está a instalar dois aerogeradores, com 7,6 MW de potência conjunta, num projecto financiado pelo PRR. Articulados com produção solar e armazenamento em baterias, deverão permitir que, em determinados períodos, a ilha seja abastecida exclusivamente por fontes renováveis, mantendo parada a central térmica. A previsão é que entre 60% e 70% da electricidade produzida anualmente no Porto Santo passe a ter origem renovável.
Menos funcionamento das centrais térmicas significa menor consumo de combustíveis. Há, portanto, um benefício económico, além do ambiental.
Mas isso não significa que cada euro poupado em combustíveis seja descontado na factura dos consumidores.
A electricidade na Madeira funciona num sistema regulado. É a ERSE – Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos – que fixa anualmente as tarifas de venda a clientes finais e os proveitos permitidos às empresas reguladas. Além disso, existe um mecanismo de convergência tarifária destinado a assegurar que os consumidores das regiões autónomas pagam preços análogos aos praticados no Continente.
A dimensão desse mecanismo percebe-se pelos números de 2026. Segundo a ERSE, se as tarifas pagas pelos consumidores madeirenses tivessem de assegurar, por si só, os proveitos permitidos às empresas reguladas da Região, seria necessário um aumento de 48,2% face a 2025. Com a aplicação da convergência tarifária, a variação aprovada foi de apenas 0,4%.
Isto acontece porque produzir, transportar, distribuir e comercializar electricidade numa pequena rede isolada como a da Madeira tem custos que não são integralmente suportados na factura dos consumidores regionais. A diferença é considerada no mecanismo nacional de convergência tarifária.
É aqui que os novos aerogeradores podem ter impacto económico sem que esse efeito apareça directamente na factura da luz.
Se a maior produção renovável permitir reduzir a utilização das centrais térmicas e a compra de combustíveis, diminui uma parcela dos custos do sistema eléctrico regional. Isso poderá reduzir, por essa via, os proveitos que terão de ser recuperados através do sistema e o sobrecusto associado à convergência tarifária.
Há, porém, outros factores a considerar. Os próprios aerogeradores exigem investimento, manutenção e exploração. Além disso, a produção eólica é variável e a Madeira necessita de garantir permanentemente o equilíbrio da sua rede eléctrica, recorrendo a outras fontes de produção e, cada vez mais, a sistemas de armazenamento.
Por isso, não existe uma relação automática do tipo: mais aerogeradores, menor factura.
Os investimentos em curso podem contribuir para reduzir a dependência de combustíveis fósseis e, consequentemente, custos do sistema eléctrico regional. Mas o preço pago pelos consumidores resulta de um mecanismo regulado bastante mais amplo e é fixado pela ERSE, tendo em conta a convergência tarifária com o Continente.
Assim, à pergunta de T. Santo, a resposta é: pode haver poupança, mas não significa necessariamente luz mais barata. Os novos aerogeradores podem ajudar a conter os custos de produção e o sobrecusto do sistema eléctrico madeirense, mas não garantem uma redução da factura paga pelas famílias. Por isso, a associação directa entre o investimento em energia eólica e electricidade mais barata para o consumidor é imprecisa.