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Crónicas

O ninho

Quando a geografia se torna biografia

“Rita, queremos fazer uma reportagem sobre ti e a tua relação com a Madeira.”

O pedido do ‘Dois às 10’ da Cristina Ferreira, na TVI, apanhou-me desprevenida.

E agora?

Há mais de trinta anos que estou habituada ao outro lado. A fazer perguntas. A escutar. A procurar aquilo que ainda não foi dito. Sou muito curiosa. Pode ser só uma alucinação, mas costumo dizer que é uma das razões pelas quais sempre quis ser jornalista.

Vejo, genuinamente, em cada pessoa um tesouro. Há sempre alguma coisa por descobrir quando nos aproximamos de alguém.

Desta vez teria de virar a curiosidade para mim. E isso foi bem mais difícil.

Que lugares escolheria para contar quem sou hoje? O que é que a Madeira diz sobre mim? E o que descobri sobre a Rita por viver aqui?

A Madeira foi o destino da minha primeira viagem de avião. Tinha três anos e vinha pela mão dos meus pais. Não me lembro dessa aventura. Tenho as fotografias e uma sensação feliz quando olho para elas. Gosto de imaginar aquela menina a levantar os pés do chão sem fazer ideia do lugar que esta ilha viria a ocupar na sua vida.

Depois parti. Cresci. Vivi e estudei noutras latitudes. Voltei.

Foi aqui que me tornei mãe.

Foi aqui que escrevi o meu primeiro livro. Brinco e digo que é o filho rapaz que nunca tive.

Foi daqui que parti tantas vezes para contar as histórias dos outros.

Foi aqui que o jornalismo me levou ao encontro daquele que, de joelho no chão, me pediu em casamento.

Foi aqui que aprendi outra dimensão do amor.

Foi aqui que casei.

Não nasci na Madeira. Não tenho aqui raízes familiares. E, enquanto escolhíamos os lugares onde gravar, percebi que aquilo já não era apenas um percurso para uma reportagem. Estava, sem dar por isso, a percorrer a minha vida.

Uma fajã especial. As levadas. A floresta. O mar. A Ponta do Sol.

Até chegarmos à minha costa preferida, o norte. E ao ninho. Literalmente.

É feito de milhares de ramos entrelaçados. No centro, uma mesa. À volta, lugares. E depois aquela imensidão.

Sentei-me lá dentro.

Que paz.

Foi aí que pensei: é verdade que não tenho raízes na Madeira. Mas tenho aqui o meu ninho.

As raízes dizem de onde vimos. O ninho conta onde escolhemos construir.

E onde é que, verdadeiramente, nos sentimos em casa?

Fiquei a pensar nisso. Nem todos os lugares são de passagem. Há uns que permanecem. Pelas pessoas que ali conhecemos, pelo que nos aconteceu, pelo que perdemos, pelo que encontrámos. A determinada altura já não conseguimos contar a nossa história sem falar deles. A Madeira é isso para mim.

E aquele ninho é uma ótima metáfora da vida.

Faz-se ramo a ramo.

Uma chegada. Um nascimento. Uma escolha. Uma perda. Uma descoberta. Um livro. Uma história. Um amor. Pessoas que chegam. Pessoas que partem. Lugares aos quais regressamos tantas vezes que já não sabemos se somos nós que regressamos a eles ou se são eles que passaram a viver dentro de nós.

Dias depois, vi a reportagem pronta.

E aconteceu o inesperado. Emocionei-me com a mulher que vi.

Confesso que escrever isto me causa algum pudor. Parece que sabemos de cor aquilo que nos falta. As falhas, as hesitações, os dias em que não conseguimos, as coisas que ainda não fizemos. Olhar para o caminho com alguma generosidade pode ser desafiante.

Naquela mulher reconheci as minhas filhas. O homem com quem escolhi caminhar. O jornalismo. Pessoas que fui encontrando. Lugares por onde passei. Partidas. Regressos. Esta ilha.

E reconheci uma coisa que me deixou feliz: continuo curiosa. Continuo a deslumbrar-me. Continuo a querer fazer perguntas e a acreditar que há um tesouro escondido em cada pessoa.

Percebi que conhecia cada ramo, mas nunca tinha parado para olhar para o ninho inteiro.

Parece-me que acontece a muitos de nós, não é? Vemo-nos demasiado de perto.

E se conseguíssemos olhar para nós com a mesma generosidade com que olhamos para aqueles que amamos? O que veríamos?

Saramago escreveu que “é preciso sair da ilha para ver a ilha”.

É mesmo isso. Também é preciso sair de nós para nos vermos.

Por alguns minutos, aquela reportagem emprestou-me essa distância. E vi a ilha.

Vi a menina de três anos que aqui chegou pela mão dos pais.

Vi a mulher que aqui se tornou mãe.

A que escreveu aqui o primeiro livro.

A jornalista que continua curiosa pelas pessoas e pelo mundo.

A mulher que aqui encontrou o amor.

Vi os ramos.

Alguns encontrei pelo caminho. Houve os leves e os que custaram a carregar. Houve também os que escolhi deixar para trás. E outros, inesperados, que acabaram por sustentar partes inteiras de mim.

A vida também se faz assim.

E há outra coisa de que gosto nos ninhos: são o lugar de onde se parte e ao qual se pode regressar.

Eu parto constantemente. Faz parte de quem sou. Vou atrás de pessoas, histórias, perguntas, lugares. Ainda quero saber o que existe para lá daquilo que já conheço.

E depois regresso.

À Madeira.

Ao meu ninho.

Não nasci aqui.

Mas há tanto de mim que nasceu aqui.

Terminei a reportagem a dizer que estar perante esta imensidão não me diminui. Dá-me perspetiva. E que aqui sou muito feliz.

Foi preciso sair da ilha para ver a ilha.