DNOTICIAS.PT
Artigos

Quando o amor dói, já não é amor

Fala-se muito da violência doméstica como um problema de adultos, de casais que partilham uma casa, com contas para pagar e discussões sobre quem deixou a loiça no lava-loiça ou de quem não mudou as toalhas ou baixou a tampa da sanita.

Mas a verdade é que existe outra violência bem perto de nós, e que bate à porta dos mais jovens e, muitas vezes, entra sem pedir licença.

Hoje, muitos dos mais novos, vivem relações que confundem controlo com carinho, ciúme com amor e invasão de privacidade com prova de confiança.

Nunca será normal exigir a palavra-passe do telemóvel para “mostrar que não tens nada a esconder”, isso não é uma demonstração de amor, é uma auditoria sentimental e uma invasão de privacidade! É um controlo, descontrolado e ninguém devia precisar de passar por uma inspeção deste nível para provar que gosta de alguém.

As redes sociais também vieram complicar a equação, pois quem ache normal controlar a última vez que o parceiro esteve online, contar os “gostos” numa fotografia ou iniciar uma discussão porque apareceu um emoji suspeito nos comentários.

Se o algoritmo já nos tira a paciência, não precisamos de transformar cada notificação num caso de polícia.

O problema é que muitos jovens cresceram a ver exemplos pouco saudáveis, seja em casa, seja em filmes, séries ou até músicas que romantizam comportamentos tóxicos, a ideia de que “quem ama tem ciúmes” continua demasiado presente, no entanto a verdade é que quem ama respeita, quem ama confia, quem ama não ameaça, não humilha e, muito menos, agride.

A violência doméstica entre jovens nem sempre deixa nódoas negras, mas vezes deixa muitas marcas invisíveis, a perda da autoestima, o medo constante, o isolamento dos amigos e da família, a ansiedade e a sensação de que nunca se é suficientemente bom para o outro. Essas feridas demoram mais tempo a sarar do que qualquer hematoma.

É por isso que a prevenção começa muito antes da primeira agressão, começa na educação, na conversa aberta entre pais e filhos, nas escolas e na capacidade de ensinar que um “não” continua a ser um “não”, mesmo quando é dito através de uma mensagem de telemóvel. Ensinar inteligência emocional é tão importante como ensinar matemática, criar jovens com autoestima e respeito por si próprio não é tarefa fácil, mas é fundamental.

Afinal, saber resolver uma equação é útil, mas saber resolver um conflito sem violência é essencial para toda a vida.

Também é importante que os jovens saibam pedir ajuda sem vergonha, não há coragem em suportar uma relação abusiva, a verdadeira coragem está em reconhecer que algo está errado e procurar apoio, há sempre um adulto por perto.

Enquanto sociedade, temos ainda um longo caminho a percorrer. Continuamos a reagir demasiado tarde e a falar demasiado pouco, deixamos de olhar porque o problema não nos atingiu, combatemos incêndios quando devíamos estar a evitar que a primeira faísca surgisse.

O amor é a entrega não deve provocar medo, não deve controlar cada passo ou limitar a liberdade de quem está ao nosso lado. O amor saudável faz crescer, não faz encolher. E talvez seja essa a maior lição que possamos transmitir às novas gerações, uma relação não se mede pelo número de mensagens enviadas por dia, mas pelo respeito, pela confiança e pela liberdade que duas pessoas conseguem construir em conjunto porque, no amor, a única coisa que devia ser “viral” é o respeito.