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Visitantes e visitados

“Vai lá mas é para a tua terra!”. “Olha este que acha que isto é tudo dele!”. “Estou tão farto de turistas que nem te digo!”.

Como devem calcular, estas frases não são minhas mas oiço-as, cada vez mais e com maior regularidade, juntamente com algumas outras que o pudor me impede de reproduzir. O pudor e o número reduzido de caracteres que me dão para escrever estes artigos…

Entretidos a debitar recordes e a contar troféus dos prémios telexfree que todos os anos vamos acumulando e publicitando – ainda vamos ter de criar um museu para tanta taça! – deixámos aparentemente de conseguir ouvir quem mais importa: - os residentes dos territórios, que se sentem cada vez mais irritados com as consequências de um crescimento sem planeamento.

Adianto-me em relação à resposta que vai ser dada a esta discussão, se ela existisse, que não vai acontecer, evidentemente. Pois se até criaram uma taxa turística para regular isto, querem mais o quê? E até proibiram AL’s na freguesia da Sé, vejam lá!

Taxar não é regular, primeiro que tudo! Se assim fosse, teríamos certamente já percecionado alguma mudança para melhor nas ruas, muitas delas hoje intransitáveis e até perigosas, nos centros turísticos e pontos de interesse saturados pelo menos em algumas horas, no preço das habitações. Ou neste cansaço evidente dos residentes em relação aos visitantes, reforço.

Deixar andar esta situação, que por muitos é apresentada como sendo de quase caos, é o desastre maior que nos pode acontecer, muito superior ao que já aí vem a caminho como consequência da diminuição da procura pelo destino Madeira.

Ao contrário dos dois séculos que antecederam este ambiente “recordístico”, as comunidades locais estão a deixar de perceber o benefício desta atividade económica, que tem de garantir ganhos às populações.

Para quando começar a planear o futuro, com uma visão de longo prazo? Para quando começar a estudar e a medir para depois orientar as políticas? Para quando analisar a capacidade de carga do território?

Já nem falo na capacidade de envolver outros para viabilizar soluções de investimento e financiamento viáveis e sustentáveis ou na aposta no papel fiscalizador e orientador das intervenções no território que ponham em causa fatores identitários ou deteriorem esse tal equilíbrio na relação entre residente e visitante.

É tudo isto que eu acho que temos ainda de fazer. Em cima de temas como o plano de contingência do aeroporto, da manutenção e preservação do produto ou da falta de recursos humanos qualificados. E de uma nova maneira de comunicar, muito menos centrada em anúncios mas mais na manutenção de uma relação saudável entre visitantes e visitados.