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Paulinho, In Memoriam

“Morreu o homem atropelado ontem no Funchal”.

“O homem de 44 anos que ao final da tarde do último sábado foi atropelado nas imediações do Hotel Baía Azul, na Estrada Monumental, no Funchal não resistiu aos ferimentos graves e acabou por morrer no início da manhã de hoje no Hospital Dr Nélio Mendonça.

Tal como o DIÁRIO noticiou em primeira mão, o homem foi colhido por uma viatura por volta das 20 horas, tendo o condutor do automóvel fugido do local sem prestar o devido socorro à vítima.

Uma equipa da Cruz Vermelha Portuguesa foi mobilizada para o local do acidente e assistiu o homem que apresentava com ferimentos muitos graves, nomeadamente na zona da cabeça e do tórax. A vítima foi transportada para o Hospital Dr Nélio Mendonça, tendo dado entrada no Serviço de Cuidados Intensivos.

A morte foi confirmada esta manhã.

Sabe-se que o homem é natural do Porto Santo, mas estava a residir na Madeira”

Esta é a transcrição fac simile da notícia publicada na edição online do Diário de Notícias da Madeira, no dia 01 de setembro de 2024.

Faz, pois, hoje, dois anos que, na verdade o “homem que foi atropelado nas imediações do Hotel Baía Azul, na Estrada Monumental, no Funchal”, perdeu a vida. Porque, não obstante os esforços das equipas médicas, pouco importa se o seu coração tenha deixado de bater às 1:30 da madrugada do, já, dia seguinte, ou no momento em que um condutor desencartado, de 18 anos, num veículo sem seguro, a uma velocidade estúpida avançou sobre um corpo humano que atravessava a passadeira “junto ao Hotel Baía Azul”, abandonando-o, prostrado, “sem prestar o devido socorro à vítima”.

Numa altura em que está na memória coletiva e atual o falecimento de outro jovem e circunstancias idênticas, não no modo, mas na alarvidade do ato. No preciso dia do segundo aniversário do “acidente”, que foi tudo, menos isso, permitam-me a justiça de dar nome ao “homem”.

Esse “homem” chamava-se Paulo Perestrelo, meu primo por afinidade, era louro, de olhos azuis, estatura baixa para o género, nasceu quinze dias antes de mim, a 13 de fevereiro de 1980. Deveria ter a minha idade. Era o segundo mais novo de quatro irmãos e tinha perdido o pai há dois anos.

O “homem” era portossantense, mas decidira vir para a Madeira onde se sentia feliz a andar a pé, pela Estrada Monumental, pela Avenida do Mar, pelas zonas comerciais da baixa. Sim, porque o Paulinho nunca quis ou sentiu necessidade de tirar carta, por isso andava a pé… e foi a pé que alguém, também sem carta, lhe ceifou a vida de forma vil e muito pouco acidental.

O Paulinho tinha um dom para a pastelaria e não raras vezes expunha o resultado desse dom nas redes sociais. Nas redes sociais onde, ainda no passado dia 13 de fevereiro, dezenas de “amigos” lhe desejaram um feliz aniversário, duma vida que já não existe para celebrar…

Que raio de “amigos” são aqueles que desconhecem, anos depois, do falecimento tão trágico e tão público do sujeito que felicitam por mais um ano de alegada vida? Faz-nos pensar… No mínimo, na autenticidade do que se vislumbra por essas redes sociais fora, não deixando ser um exercício, no mínimo social, no máximo, macabro…

O Paulo era uma pessoa discreta, metida com a sua própria vida, que não fazia mal a ninguém, a não ser aos diabéticos. Que voltou a casa, juntamente com a mãe, a Professora Graça, os irmãos e os primos, nos quais me incluí, mas já não juntos, já não alegres e pela segunda vez em dois anos, para nos despedirmos, primeiro do mais velho da casa e depois, de um dos mais novos. Num sofrimento que aquela família não precisava passar.

Acidentes e crimes estradais sempre houve e continuarão, não são novidade dos novos tempos, nem sequer das “novas” vias, mas o que convém não esquecer é que cada vítima desses acidentes, ou crimes, tem um nome, família e sonhos e não eram, são, um mero número estatístico, um “homem” ou uma “mulher” que calhou estar no momento errado, na hora errada.

Este foi o Paulinho, que descanse em paz.