Não sou do contra, há é por aí muitos a favor de tudo
1. Não sou do contra, embora seja mais cómodo dizerem que sou, porque assim não precisam ouvir, basta arrumarem-me numa gaveta com uma etiqueta, fechá-la e regressar ao sossego, ao café, ao aceno de cabeça, à pequena concordância útil com que se vai fazendo uma vida, uma carreira, às vezes uma fortuna, quem sabe, e eu ali dentro, a protestar sozinho segundo eles, quando na verdade sou a favor, muito a favor, talvez demasiado a favor para a paz de espírito de quem prefere não ser a favor de coisa nenhuma até perceber o que convém.
Sou a favor da Autonomia, por exemplo, não daquela de cerimónia, com discursos, bandeiras e lugares sentados nas primeiras filas, mas da outra, a que obriga a decidir, a responder pelo que se decide e a não telefonar para Lisboa sempre que as contas deixam de bater certo. Sou a favor de uma Madeira que governe mais e se desculpe menos, que tenha poder, sim, mas que suporte o peso do poder, coisa desagradável, porque o poder sem responsabilidade é um brinquedo e, com responsabilidade, transforma-se em trabalho. Sou a favor da liberdade de cada um, da iniciativa de quem tenta fazer alguma coisa sem pedir licença a meia dúzia de repartições, da concorrência que incomoda os instalados, do mérito que estraga os planos aos recomendados e de um Estado que se recorde de que foi inventado para servir pessoas, não para as domesticar com formulários, favores e agradecimentos.
Sou a favor de casas onde as pessoas possam viver sem entregar a vida inteira ao banco, de cidades pensadas antes de serem vendidas, de prédios que respondam a uma necessidade e não ao delírio de alguém que descobriu, de repente, que o céu é terreno disponível. Sou a favor de recuperar o que está vazio, de usar aquilo que é público, de tornar habitável o que foi abandonado, de licenciar depressa o que merece ser licenciado e de impedir o que não passa de ganância vestida de urbanismo. Há quem ache isto pouco moderno, naturalmente, porque o moderno, para certos espíritos, consiste em erguer vinte andares, colocar uma árvore num desenho digital e chamar sustentabilidade ao betão.
Sou a favor de ligações às ilhas que não pareçam favores da República, de transportes que respeitem quem cá vive e de uma economia menos dependente de uma só torneira, para não ficarmos espantados quando ela se fecha. Sou a favor de empresas que cresçam sem bênçãos, de escolas que ensinem, de hospitais que tratem e de serviços públicos em que o cidadão não precise conhecer alguém para encontrar o seu processo.
Sou a favor de uma cultura que perturbe, não que decore discursos; de uma paisagem onde ainda se reconheça a ilha; dos poios, da agricultura, das pescas e de um mar que seja economia, não só metáfora. Sou a favor de um turismo que não destrua o que procura, de energia limpa sem propaganda e de uma floresta cuidada antes do incêndio, não depois, quando todos aparecem, graves, perante os microfones, a explicar que nada se podia prever e que a responsabilidade, essa criatura tímida, não existe.
Sou a favor de impostos compreensíveis, leis previsíveis, decisões explicadas e políticas avaliadas pelo que produzem, não pelas páginas de jornal que compram, pelas inaugurações que organizam, pelas visitas que fazem ou pela quantidade de gente que conseguem alinhar atrás de um púlpito. Sou a favor de consequências quando se falha, essa extravagância quase indecente num lugar onde o fracasso costuma dar direito à promoção, ao erro chama-se experiência e à persistência no erro dá-se o nome de estabilidade.
Sou a favor do debate verdadeiro, não do teatro em que cada um traz respostas prontas, fala por cima dos outros e declara o assunto esclarecido. Sou a favor do contraditório, dos factos, dos números que não mudam com o partido e da ciência sem cartão de militante. Sou a favor de admitir erros: mudar de opinião perante a realidade não é fraqueza, fraqueza é mudá-la perante um cargo, um convite, uma ameaça ao telefone ou aquela mão no ombro que apenas recorda quem manda.
Sou a favor de quem pensa com a própria cabeça, mesmo que pense contra mim, sobretudo se pensa contra mim e consegue explicar porquê. Sou a favor de universidades que não aguardem instruções, de jornais que não confundam acesso com dependência e de cidadãos que não entreguem a consciência à primeira pessoa que surge num ecrã com voz firme e um gráfico colorido. Pensar dá trabalho, bem sei, e, ainda por cima, não assegura subsídio, lugar, fotografia ou amizade influente, de maneira que compreendo a escassez, não a desculpo, mas compreendo-a.
O que sou contra é mais simples. Sou contra quem come e cala e, em certos casos, come tanto que já nem consegue falar. Sou contra quem, em privado, baixa a voz para me dar razão e, em público, levanta a voz para me desmentir, como se a verdade dependesse da sala, das cadeiras, da presença do chefe ou da proximidade de uma câmara. Sou contra a gente que guarda as convicções numa gaveta e escolhe uma de manhã, conforme a agenda: esta hoje, aquela amanhã, nenhuma quando é perigoso, todas quando chega a hora de escrever as memórias.
Sou contra os homens do sim, essas criaturas de coluna flexível, olhar atento e ouvido treinado, capazes de detectar uma mudança na opinião superior antes de a opinião superior perceber que mudou. Entram numa reunião vazios e saem cheios da certeza alheia, repetem-na pelos corredores, defendem-na ao almoço, ornamentam-na nas redes sociais e, se for preciso, juram que sempre pensaram assim. Talvez pensem, quem sabe, depois de tantos anos a imitarem os outros, que já não se recordem de onde termina a ordem e começa a cabeça.
Sou contra o medo disfarçado de sensatez, a dependência apresentada como lealdade e a mediocridade que se protege em grupo, uma mediocridade muito organizada, com contactos, lugares reservados, felicitações públicas e indignações combinadas. Não sabem muito, mas todos se conhecem, o que, em certos meios, é bastante mais importante. O mérito chega sozinho, hesita à porta, não reconhece ninguém e acaba por regressar a casa. A mediocridade entra acompanhada, cumprimenta o porteiro pelo nome e já tem a mesa posta.
Sou contra quem não responde ao argumento e prefere examinar a pessoa, a intenção, o tom, a biografia, o suposto interesse escondido, tudo menos aquilo que foi dito. Sou contra o especialista de conhecimento invisível, aquele que sabe, garante que sabe, ofende-se se lhe pedem que mostre o que sabe e considera a exigência de prova uma falta de respeito. Traz o saber fechado num cofre, pelos vistos, tão bem fechado que nem ele consegue abri-lo, mas exige que acreditemos na existência do tesouro por deferência ao cargo, ao título ou à expressão séria com que pronuncia banalidades.
Sou contra quem declara não ter opinião formada e, logo depois, passa meia hora a combater a opinião dos outros, uma dessas maravilhas lógicas que a vida pública produz com abundância: não sabe, não estudou, ainda não decidiu, mas tem a certeza de que nós estamos errados. Sou contra a autoridade que se julga inteligência, o ruído que se julga razão, a pose que se julga competência e a ignorância que, desde que pronunciada devagar, imagina ter adquirido profundidade.
Sou contra os dados escolhidos como cerejas: estes servem, aqueles apodreceram, os outros não estavam disponíveis, e, no fim, apresenta-se uma cesta impecável que prova precisamente aquilo que já se queria provar antes de colher, fosse o que fosse. Sou contra decidir primeiro e estudar depois; contra o improviso que se transforma em método; contra essa espécie de governo por pressentimento em que alguém tem uma ideia ao pequeno-almoço, anuncia-a ao almoço e, ao jantar, já existe uma comissão encarregada de demonstrar que a ideia era inevitável.
E sou contra essa arrogância insular segundo a qual o conhecimento perde validade ao atravessar o mar, como se aqui as leis fossem outras. Uma investigação feita em Copenhaga, Londres, Tóquio ou na Cochinchina vale pelo método, pela prova e pela possibilidade de ser contrariada, não pelo sotaque de quem a assina nem pela sua proximidade com o poder. O conhecimento não é regional, partidário ou protocolar: um cálculo não se torna falso por incomodar, um edifício não fica mais barato por decreto e um problema não desaparece porque alguém decidiu encerrá-lo.
Sou contra o “depende” quando o “depende” serve apenas para fugir, contra a prudência, que é medo com gravata, contra as percepções convocadas sempre que os factos estragam a festa. Há coisas que dependem, evidentemente, quase tudo depende de alguma coisa, mas há um momento em que o depende deixa de ser inteligência e passa a ser refúgio, e lá dentro permanecem, quietos, à espera de que a realidade se canse e vá embora.
Não, eu não sou do contra, embora perceba a utilidade da acusação: transforma quem pergunta num problema e poupa quem responde ao incómodo de responder. Sou a favor de demasiadas coisas, mas não por turnos, em privado, à porta fechada, olhando primeiro para os lados. Digo em público o que digo à mesa, diante de quem manda e mesmo quando quem manda não gosta de ouvir; isto, que devia ser simples higiene, parece hoje extravagância, talvez uma ameaça, num lugar onde tanta gente muda de voz conforme o dono da sala.
2. Faço agora uma pausa e só regresso no mês que vem. Até lá vou aguardando com serenidade o tal estudo que a Sra. Presidente da Secção Regional da Ordem dos Arquitectos diz ter sobre a construção em cota elevada.