Reflexões sobre sismos: da Venezuela ao Japão
Na RAM, baixa sismicidade não significa risco nulo. Sempre que um sismo provoca destruição somos confrontados com a mesma evidência: os fenómenos naturais não se evitam, mas os seus impactos podem ser reduzidos. A diferença entre tragédia e resiliência – na Venezuela, na Turquia e em Marrocos ou, por contraste, no Japão – está na preparação, na qualidade da construção e na capacidade de resposta, dimensões em que a engenharia é determinante. Estas tragédias impelem-nos a refletir sobre o nosso território.
Em Portugal, existem diferentes zonas de perigosidade sísmica, refletindo a suscetibilidade variável do território: mais elevada no Algarve e na região de Lisboa e Vale do Tejo, muito significativa nos Açores e mais baixa no Norte e na Madeira.
A RAM situa-se numa zona intraplaca do Atlântico oriental, afastada das grandes fronteiras tectónicas ativas, apresentando sismicidade globalmente reduzida. Os estudos disponíveis apontam sobretudo para sismos de magnitude baixa a moderada, frequentemente com epicentros afastados, associados à zona Açores-Gibraltar, às margens ibérica e africana ou à evolução vulcano-tectónica regional.
Mas baixa sismicidade não significa risco nulo. O risco resulta da combinação entre perigosidade, vulnerabilidade e exposição. Não depende apenas da intensidade do abalo, mas também da qualidade de construção do edificado, da localização das populações, da robustez das infraestruturas críticas e da eficácia dos mecanismos de socorro e salvamento.
A Madeira é uma ilha vulcânica jovem, nascida no interior da placa Africana, uma zona intraplaca do Atlântico oriental, afastada das grandes fronteiras tectónicas onde ocorrem os sismos mais frequentes e violentos. Os estudos disponíveis apontam sobretudo para sismos de magnitude baixa a moderada, frequentemente com epicentros afastados, associados à zona Açores-Gibraltar, às margens ibérica e africana ou à evolução vulcano-tectónica regional. Mas o território guarda as marcas da sua origem: lineamentos tectónicos, redes de fraturas e filões subverticais e sistemas vulcano-tectónicos que condicionam a circulação subterrânea, a estabilidade de vertentes e a implantação de infraestruturas. A esta realidade soma-se uma geomorfologia exigente, com declives acentuados, vales encaixados, arribas elevadas e episódios de precipitação intensa. Por isso, o risco sísmico deve ser analisado em articulação com outros riscos naturais, como movimentos de vertente, aluviões e instabilidade costeira.
É esta preocupação que o Eurocódigo 8, a norma europeia de projeto sismo-resistente em vigor em Portugal, enquadra tecnicamente. O princípio é simples: as estruturas devem proteger vidas humanas, limitar danos e assegurar que edifícios essenciais à proteção civil (hospital, bombeiros, centrais) permanecem operacionais após um sismo. Para a RAM, dado o seu enquadramento geológico, a norma considera apenas sismos de origem afastada e coloca todos os concelhos na zona de menor exigência sísmica do país — muito abaixo de Lisboa, do Algarve ou dos Açores
Em síntese, o risco sísmico na RAM é baixo, mas não inexistente. A Região está afastada das principais fronteiras tectónicas, mas a vulnerabilidade do edificado, a complexidade geológica e geomorfológica da ilha e a importância das infraestruturas críticas exigem prevenção, manutenção e rigor técnico permanente. A Madeira não deve viver alarmada com os sismos, mas também não pode ignorá-los. Estes não avisam, mas não surpreendem quem se preparou. E essa diferença, entre o susto e o lamento, decide-se previamente, na engenharia e na prontidão dos agentes de proteção civil e na preparação de todos nós.