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A China é mais Social Democrata que os EUA?

Diz-nos o Banco Mundial, que a China, na última década, retirou quase 100 milhões de pessoas da pobreza extrema

À primeira vista, a pergunta pode surpreender. O mundo olha para os Estados Unidos da América (EUA) como uma democracia liberal consolidada e a China continua a ser governada por um partido único. No entanto, se deixarmos de lado a questão do regime político e nos focarmos apenas na forma como a riqueza produzida pela economia é utilizada, a resposta torna-se menos óbvia do que poderá parecer. Uma das traves mestras da tradição social-democrata, consiste na ideia de que a riqueza produzida pela economia deve ser parcialmente redistribuída através da ação do Estado, de modo a promover o bem-estar coletivo, reduzir desigualdades e garantir investimentos de interesse público. Ora, a experiência chinesa revela elementos difíceis de ignorar, pois nas últimas décadas, o Estado chinês canalizou enormes recursos para a construção de infraestruturas, sistemas de transporte, habitação, educação, saúde e desenvolvimento tecnológico.

Diz-nos o Banco Mundial, que a China, na última década, retirou quase 100 milhões de pessoas da pobreza extrema e antecipou em 10 anos, a meta estipulada pela ONU, que era 2030, para a erradicação da pobreza absoluta. Independentemente das críticas que possam ser feitas ao regime político, é constatável que uma parte substancial da riqueza nacional, regressa à sociedade sob a forma de investimentos tangíveis, que melhoram as condições de vida de centenas de milhões de pessoas. Em contraste, os EUA representam o liberalismo económico no seu estado mais “agressivo”, onde o mercado assume um papel predominante na distribuição dos recursos. Mas sobre o problema da (imensa) pobreza existente, as notícias, parecem ignorar e inclinam-se, invariavelmente, para o aumento exponencial da riqueza daqueles que já são imensamente ricos. Dados da Reserva Federal (Fed), indicam que no terceiro trimestre de 2025, o 1% mais rico das famílias, detinha 31,7% de toda a riqueza dos EUA, a maior fatia já registada, desde que o Fed começou a monitorizar a riqueza das famílias em 1989. Embora o Estado americano também realize despesas sociais significativas, nomeadamente o “Food Stamps”, a lógica dominante continua a privilegiar a iniciativa privada, a acumulação de capital e a ideia de que o crescimento económico beneficia a sociedade de forma indireta. O problema é que, na prática, os resultados nem sempre confirmam essa expectativa. Apesar de serem a maior potência económica mundial, os EUA exibem níveis de desigualdade muito elevados para um país desenvolvido, bem como problemas visíveis de pobreza, exclusão social, falta de acesso a cuidados de saúde e degradação de algumas comunidades. Esta realidade levanta uma questão legítima: até que ponto um sistema económico pode ser considerado bem-sucedido quando gera riqueza extraordinária, mas permite simultaneamente não só que uma parte significativa da população permaneça em situação de vulnerabilidade, como também empurra cidadãos para esse terreno? A crítica frequentemente dirigida ao modelo americano é precisamente a de que a procura incessante pelo lucro e pela valorização do capital, tende a sobrepor-se ao interesse coletivo. Em certos setores, parece existir uma lógica segundo a qual quase tudo é aceitável desde que contribua para aumentar a rentabilidade económica, mesmo que isso implique o agravamento das desigualdades sociais. Naturalmente que seria incorreto idealizar a China como modelo a seguir. O país enfrenta problemas sérios, incluindo desigualdades regionais, limitações às liberdades políticas e um elevado grau de controlo estatal sobre a sociedade. Além disso, a redistribuição promovida pelo Estado chinês não resulta de mecanismos democráticos comparáveis aos existentes nas democracias europeias. Ainda assim, a comparação evidencia uma contradição frequentemente ignorada no discurso ocidental: um regime que não é democrático conseguiu, em várias áreas, utilizar o crescimento económico para produzir benefícios coletivos visíveis, enquanto uma das democracias mais antigas do mundo enfrenta dificuldades crescentes para converter a sua enorme riqueza em prosperidade amplamente partilhada. Assim, talvez não seja correto afirmar que a China está mais próxima da social-democracia em termos políticos, mas pode sustentar-se que, no plano da utilização da riqueza nacional para objetivos coletivos e desenvolvimento público, ela incorpora práticas que se aproximam mais de alguns princípios tradicionais da social-democracia do que o modelo económico predominante nos EUA. Essa constatação não constitui uma defesa do sistema político chinês, mas antes uma crítica à capacidade do modelo americano para conciliar criação de riqueza com justiça social.