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Continuamos TAPados

Esta semana nem sei se, para pedir o reembolso de uma viagem, devo ir aos CTT ou ao segundo andar do Mercado dos Lavradores, porque, ao ritmo a que isto muda, já não distingo qual dos dois tem preços mais simples. Um dia é a plataforma online, no dia seguinte é preciso levar a fatura ao balcão, e no momento em que escrevo, esqueceram o tecto: pague o que for preciso, que o Estado paga o resto, como quem financia o próprio funeral e ainda agradece a simpatia. Ao menos já sei o que deixar no testamento: às minhas filhas, o cartão de milhas; ao Estado, a conta.

Porque é isso que esta lei tem de fascinante: transformou o preço do bilhete numa doença sem cura — não se trata, gere-se. Já ninguém pergunta por que custa tanto voar entre duas partes do mesmo país. Pergunta-se apenas quem assina o cheque. Durante anos existia um limite: 600 euros para os Açores, 400 para a Madeira — já uma fortuna para uma viagem que devia ser tão simples como apanhar um comboio entre Lisboa e o Porto. Mas alguém decidiu que o problema não era o preço do bilhete. Era o tecto. Genial. Porque agora, sem limite, o bilhete custa o que a companhia entender e o Estado, generoso com o dinheiro dos outros, paga a diferença toda, sem pestanejar.

O próprio Presidente da República, ao promulgar a lei, avisou por escrito que a eliminação do limite “poderá comportar diversos efeitos”. Tradução livre: “isto vai correr mal, mas eu avisei”.

E quem beneficia desta dádiva sem fronteiras? Não é o passageiro, que continua a pagar o bilhete inteiro primeiro e a esperar depois pelo reembolso. É a companhia aérea, que descobriu a fórmula perfeita: cobrar o que quiser, sabendo que o preço já não é problema seu — é só um número que o Estado copia para o cheque.

“O céu é o limite”. A expressão nasceu em jogos de poker no séc. XIX, quando não havia limite para as apostas. Parece que quem proferiu a frase já sabia que ia abrir a TAP no século seguinte. É como se fosse uma promessa de voo livre, de horizonte aberto. Mas o único que voa alto é o preço. Nós ficamos cá em baixo, na fila dos CTT, com a fatura na mão e o caixão do tecto máximo já fechado, à espera de ser levado. Mas em vez de haver discurso fúnebre, há só um Diário da República a certificar o óbito.

Chamam-lhe Mecanismo de Continuidade Territorial. Eu chamo-lhe mecanismo de generosidade alheia: generosa com o dinheiro dos ilhéus. Porque, sem tecto, uma família de quatro pessoas pode ter de adiantar 2800 euros do próprio bolso antes de ver um cêntimo de volta. Continuidade, sim — a de sermos sempre nós a emprestar dinheiro ao Estado, que acha que somos TAPadinhos.