Há terramotos que escancaram a humanidade
Entre caixas, abraços e lágrimas, a esperança também se organiza
Adolescentes, jovens, idosos e pessoas em situação de maior vulnerabilidade. Famílias inteiras. Chegam com sacos, caixas ou apenas com um modesto pacote de Harina PAN, um litro de leite ou um pacote de fraldas. Cada um traz aquilo que pode.
Há mais de uma semana que é assim, nos centros de recolha de donativos para as vítimas do terramoto na Venezuela.
”Gracias de corazón. Que Dios te multiplique toda esa bondad.”
Ouço esta frase vezes sem conta.
Vem acompanhada de abraços, lágrimas, ansiedade e profunda consternação. Mas também de sorrisos.
Repete-se a cada donativo entregue. A cada gesto de generosidade.
Não soa apenas a um agradecimento.
Parece uma oração.
Um desejo sincero de que o bem encontre o caminho de regresso a quem, naquele momento, decidiu cuidar de alguém que nunca viu.
Tive, há muitos anos, o privilégio de conhecer de perto a alma deste povo extraordinário.
Conheço-lhes a força. A fé. A coragem. A forma quase teimosa como continuam a acreditar que dias melhores virão, mesmo quando tudo parece desabar.
Voltar a encontrar tudo isso, agora revelado com ainda mais intensidade pela tragédia, reconciliou-me um pouco mais com a humanidade.
No meio da dor, ninguém pergunta quem a outra pessoa é, em quem vota, onde nasceu ou quanto tem.
Pergunta apenas:
“Do que precisa?”
E ajuda.
Das muitas imagens que levo comigo, há uma que regressa sempre à memória. É tempo de férias. Dias de praia, de descanso e de encontros com amigos. Ainda assim, muitos adolescentes e jovens escolhem passar dias inteiros no centro de recolha da Rua da Carreira, no Funchal.
Organizam caixas. Carregam sacos. Recebem as doações. Encaminham famílias. Confortam quem chega com o olhar perdido.
Ninguém lhes pediu que ali estivessem.
Estão porque sentiram que era ali que faziam falta.
Enquanto os observava, ocorreu-me que a bondade também se aprende. Não em discursos. Mas assim. De caixa em caixa. De mão em mão. Parecia haver sempre mais pessoas a chegar do que a partir.
Um gesto parecia chamar outro.
Naqueles dias, o maior desafio não foi apenas contar o que estava a acontecer. Foi conseguir continuar a fazê-lo sem perder o centro.
O jornalismo exige rigor. Mas nunca exigiu ausência de emoção.
Entre um direto e outro, precisei de parar durante alguns segundos. Respirar. Reconhecer e acolher aquilo que estava a sentir.
Não para afastar a dor. Mas para que ela não ocupasse o lugar da escuta.
Porque um jornalista pode emocionar-se. O que não pode é deixar que a sua emoção fale mais alto do que a história de quem tem diante de si.
Hoje sabemos que o sofrimento dos outros também deixa marcas em nós.
O coração acelera.
A respiração muda.
A garganta aperta.
É profundamente humano..
Carl Rogers defendia que a verdadeira empatia não consiste em mergulhar na dor do outro, mas em permanecer suficientemente próximo para a compreender sem perder o próprio equilíbrio.
É isso que o jornalismo me pede todos os dias.
Escutar.
Observar.
Testemunhar.
E deixar-me tocar o suficiente para nunca esquecer que, antes de qualquer notícia, havia pessoas.
Pessoas que perderam familiares, amigos, casas, fotografias e memórias de uma vida inteira.
E que, apesar disso, continuavam a agradecer.
Continuavam a abraçar.
Continuavam a acreditar.
Nos últimos dias perguntaram-me várias vezes de onde vem tanta fé. Como é possível encontrar esperança no meio de uma tragédia desta dimensão? Como é que se sobrevive a isto?
A resposta, acredito, não nasceu com este terramoto. Sempre esteve lá.
Vivi dois anos na Venezuela. Aprendi que, para muitos venezuelanos, a esperança não depende das circunstâncias. É uma decisão. É uma forma de estar no mundo. Continuam a cuidar dos outros quando são eles que mais precisam de cuidado.
Saio sempre daquele centro profundamente emocionada. Não apenas pela dimensão da tragédia. Mas pela dimensão da humanidade que nela encontro.
Há terramotos que derrubam edifícios. Mas não conseguem derrubar a capacidade de um povo para cuidar do outro.
A esperança não nasce da ausência de sofrimento. Nasce quando alguém decide que ninguém deve atravessá-lo sozinho.
É impossível terminar esta crónica sem reconhecer o trabalho de três mulheres extraordinárias: Xabrina Rodrigues, Francis Relva e Diana Rodriguez. À frente de uma notável equipa de voluntários do centro de recolha de donativos da Rua da Carreira, mostraram que liderar é, antes de mais, cuidar.
Obrigada pela dedicação, pela organização, pela capacidade de mobilizar tantas pessoas e pela alegria contagiante com que acolhem cada voluntário, cada família e cada gesto de solidariedade.
Obrigada, também, pela disponibilidade constante com que apoiaram cada direto e cada reportagem, sem nunca esperarem receber nada em troca.
A solidariedade também precisa de quem a organize. E vocês mostram, todos os dias, que a verdadeira liderança inspira os outros a fazer o bem.