Nenhum chegou aqui sozinho
Antes de o mundo reconhecer alguém, houve sempre quem acreditasse primeiro
Quando escolhemos olhar apenas para o que faz mais barulho, é fácil concluir que a juventude está perdida. Mas basta olhar melhor para perceber que não. Multiplicam-se os exemplos de jovens que nos recordam que não são as circunstâncias da vida que determinam quem nos tornamos. Há dias em que dou por mim a pensar em alguns deles.
Uma nasceu no Paquistão. Chama-se Malala Yousafzai. Tinha apenas 15 anos quando foi baleada pelos talibãs por defender o direito das raparigas à educação. Podia ter deixado que a violência lhe ensinasse o medo ou o ódio. Em vez disso, transformou a sua história numa causa global pela educação e pela dignidade humana.
Ao seu lado esteve sempre um pai que acreditou que uma filha tinha exatamente os mesmos direitos que um filho e que lhe ensinou que a voz existe para servir uma causa maior do que nós próprios.
Malala acredita que “uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo.”
Outra nasceu na Síria. Chama-se Yusra Mardini. Aos 17 anos, quando fugia da guerra, o barco onde seguia começou a afundar-se no Mediterrâneo. Ela e a irmã saltaram para a água e ajudaram a empurrá-lo até à costa, salvando dezenas de pessoas. Mais tarde tornou-se atleta olímpica e Embaixadora da Boa Vontade do ACNUR, usando a sua voz para defender refugiados em todo o mundo. Muito antes de salvar dezenas de pessoas no Mediterrâneo, alguém lhe tinha ensinado a nadar. Foi o pai. Sem o saber, estava também a ensinar-lhe que a coragem se aprende.
Yusra diz “sou forte o suficiente para fazer os outros voltarem a acreditar nos seus sonhos.”
O terceiro chama-se Lamine Yamal. Tem apenas 19 anos. Filho de uma mãe da Guiné Equatorial e de um pai marroquino, cresceu em Rocafonda, um bairro multicultural nos arredores de Barcelona. Acabou de conquistar o Mundial ao serviço da seleção espanhola e tornou-se o rosto da competição. O que mais me impressiona não são os golos. É a forma como encara o sucesso. Quando lhe perguntaram se sentia pressão, respondeu: “A minha mãe teve-me aos 16 anos. Isso sim é pressão.”
Yamal tem condenado publicamente o racismo e a islamofobia, foi nomeado Embaixador da Boa Vontade da UNICEF e usa hoje a sua voz para defender o direito de todas crianças a brincar e a crescer com dignidade.
À primeira vista, estas três histórias parecem não ter nada em comum. Mas têm o essencial. Nenhum escolheu as circunstâncias em que nasceu. Todos encontraram uma forma de lhes responder. E nenhum chegou aqui sozinho.
Vivemos numa época em que confundimos influência com popularidade e sucesso com protagonismo. Só que o verdadeiro sucesso é outro: chegar longe com a humildade de reconhecer que não chegámos sozinhos. Continuar a lembrar-nos de quem nos segurou a mão quando ainda ninguém aplaudia. E usar a voz conquistada para abrir caminho a outros.
É isso que vejo em Malala. Em Yusra. Em Lamine Yamal. Esta crónica Essencial não é só sobre eles. É também sobre nós.
Sempre que ouvimos alguém dizer que “os jovens de hoje não prestam”, devíamos ter a coragem de nos perguntarmos: Quem educou esses jovens?
Nenhuma geração nasce sozinha. O caráter não surge por acaso. Vai sendo moldado, todos os dias, através dos exemplos que uma criança observa e sente na pele. Pela forma como nos vê tratar os outros. Como lidamos com a diferença. Como reagimos ao sucesso, ao fracasso, ao poder e ao sofrimento. Pela forma como a fazemos sentir.
Dizemos que a violência gera violência. É verdade. E também é verdade o contrário. O exemplo gera exemplo. Estes jovens são a prova disso. Eles não fazem apenas aquilo que lhes dizemos. Fazem, sobretudo, aquilo que nos veem fazer. Pelo caráter que revelam quando o mundo inteiro está a olhar para eles, mostram-nos que isto vai muito além das suas vitórias. E deixam-nos perante uma verdade tão simples quanto radicalmente exigente: quando dizemos que a juventude está perdida, estamos, inconscientemente, a admitir que os adultos falharam. Cada geração traz consigo a marca dos exemplos que recebeu.
Se o ódio se aprende, o amor também. Se a violência se reproduz, o exemplo também. A melhor notícia é a de que nunca é tarde para nos tornarmos o exemplo que gostaríamos de ver na geração que está a crescer. E isso pede consciência.
Entre todas estas histórias, há uma que me toca de uma forma diferente. A minha filha mais nova, Madalena Aleluia. Com apenas 12 anos, transformou experiências difíceis da sua própria vida numa voz em defesa dos direitos das crianças, alertando para o bullying e desafiando os adultos a refletirem sobre a responsabilidade que têm na forma como os mais novos aprendem a olhar para si próprios e para os outros.
Numa entrevista ao Diário de Notícias e, mais tarde, numa FNAC Talk, lembrou que muitas das palavras e dos comportamentos que ferem uma criança são aprendidos através dos adultos. E deixou-lhes um apelo que resume, afinal, toda esta crónica: “O mais importante não é serem perfeitos. O mais importante é que os adultos façam uma pausa e olhem para as crianças. Liguem-se de verdade aos vossos filhos.”