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Sentir La Guaira

Nas últimas semanas, todos ouvimos repetidamente o nome de La Guaira, a faixa costeira da Venezuela que ficou profundamente marcada por dois violentos sismos. As imagens da destruição, das casas reduzidas a escombros, das famílias separadas e da dor coletiva chegaram-nos através dos ecrãs, mas, para milhares de madeirenses, esta tragédia nunca foi apenas uma notícia. Foi uma ferida sentida como nossa.

La Guaira foi, durante décadas, um lugar onde floresceu uma grande comunidade madeirense. Foi também a terra onde eu, como tantos filhos e netos de emigrantes, tive o privilégio de nascer e crescer. Uma terra voltada para o mar, abraçada pela montanha, que o meu avô escolheu, na década de 50 do século passado, para construir uma nova vida longe da Madeira. Talvez porque aquela paisagem lhe lembrasse a ilha que deixara para trás. Talvez porque acreditasse que o mesmo oceano que nos separava também nos unia.

A manchete do Diário de Notícias da Madeira dizia: “La Guaira também é Madeira.” E dificilmente poderia haver frase mais verdadeira. Porque La Guaira nunca foi apenas um destino de emigração. Foi um prolongamento da nossa identidade, um lugar onde gerações de madeirenses trabalharam, constituíram família e preservaram tradições, construindo uma ponte humana entre as duas margens do Atlântico.

Durante dias, também na Madeira se viveu a angústia. Em muitas casas esperou-se, em silêncio, por uma chamada, uma mensagem, qualquer sinal de vida. A frase mais desejada era apenas uma: “Estamos vivos.” Para muitas famílias, esse momento chegou envolto em lágrimas de alívio. Para outras, infelizmente, nunca chegou. E há silêncios que nenhuma palavra consegue preencher.

Hoje, percebemos que a reconstrução será muito mais longa do que a remoção dos escombros. Reconstruir um território é possível; reconstruir vidas exige tempo, memória e esperança.

Perante esta tragédia, o povo madeirense voltou a revelar aquilo que melhor o caracteriza: a solidariedade. Porque quem conhece a história da emigração sabe que a distância nunca apagou os laços que unem estas duas terras. Quando La Guaira sofre, a Madeira também sente.

Estas linhas são uma homenagem a todos aqueles que perderam a vida, aos que continuam desaparecidos e às famílias que ficaram para contar histórias interrompidas demasiado cedo. Que a memória de cada uma dessas vidas não se perca entre os escombros e que encontremos, na solidariedade e na humanidade, a força para ajudar quem hoje recomeça do zero.

Há lugares que deixamos. E há lugares que nunca nos deixam. Para muitos madeirenses, La Guaira será sempre um deles.