O São João da nossa História
Chegaram as tão esperadas festas do concelho, sem dúvida o momento mais emblemático do calendário comemorativo do município. A marginal da Calheta veste-se a rigor para receber os 814 participantes nas Marchas de São João, cada qual a representar com primor e orgulho a sua freguesia. E todas as oito freguesias unidas com música, cor e alegria. Entre um programa cheio de muita música e animação, sem dúvida que as Marchas Populares são o ponto alto do evento.
O Fogo de artifício sobe ao céu em modo de homenagem por todos os que assistem e por todos aqueles que não estão ou já não estão. Porque o momento é sobretudo de festa e celebração da nossa história, de agradecimento e reconhecimento a todos aqueles que construíram a Calheta como hoje a conhecemos, este nosso pedaço de paraíso.
Nem sempre foi assim e o saudoso Maestro Victor Costa, ao escrever o nosso Hino, soube descrever na perfeição a resistência e dureza que acompanhou a vida dos madeirenses durante séculos. Que digam os mais velhos, que digam os nossos emigrantes.
Felizmente o mundo evoluiu, a Madeira soube aproveitar o processo autonómico, soube reivindicar, soube investir e soube se desenvolver. Nem tudo é perfeito mas dúvidas não existem que somos uma região de excelência, competitiva e desenvolvida, que muitas das nossas políticas são exemplo para o país.
Mas é preciso continuar, não podemos baixar a guarda.
Há dias alguém me dizia o quanto seria importante os nossos jovens perceberem que nada daquilo que têm à sua disposição sempre foi assim, que nada pode ser dado como adquirido. A perceção das agruras e dificuldades dos nossos antepassados ajudam-nos a prever e precaver o futuro. Aquele futuro que será o deles, repleto de desafios e que tem de ser semeado já.
E mesmo que não pareça à primeira vista, a grande participação dos jovens nas nossas marchas, com as suas temáticas habituais que normalmente procuram replicar antigos usos, costumes e tradições servem para perceber isso mesmo, que o transporte em rede era uma realidade e só ao dispor dos mais abastados; que o mar revolto era a única estrada de ligação; que uma pequena embarcação era o meio de transporte possível; que poucos sabiam nadar e que não haviam coletes salva vidas para os restantes, que o único momento de lazer era ao Domingo depois da missa e depois de um almoço que nem sempre dava para encher a barriga. Mas que, mesmo assim, brincavam descalços na rua, com uma simples bola de trapos ou com um velho pião, com a mesma alegria com que marcham hoje os nossos jovens.
Porque somos mesmo assim, sabemos ser felizes com pouco pela nossa humildade, mas munidos de uma força de lutar e sonhar como ninguém. Não fossemos calhetenses, não fossemos madeirenses e talvez porque todos batizados por São João Batista.
Bom São João!