En garde!
O dia, o tal em que haveria de lutar contra os meus demónios com uma espada na mão, estava a acontecer
Não é fácil dar com a sala de esgrima e, para lá chegar, é preciso descer escadas, passar pelo parque de estacionamento antes de voltar a subir outras escadas e seguir por um corredor que, à hora que cheguei, estava cheio de jogadores, não sei bem de que escalão. Eu vinha adiantada, calculei mal a distância entre a casa do Laranjal e o campo do Marítimo, e, com medo de causar má impressão, meti a mochila às costas e larguei pelo caminho, a pé. Tal e qual como fazia ao domingo depois da missa das 10 na Visitação quando a distância que fiz em 10 minutos me parecia muito maior, talvez por ter as pernas mais curtas e usar botas ortopédicas e a comparação com meu pai e o meu irmão não ajudar. E dei por mim a pensar nesses passeios, quando o meu pai ia comprar cigarros à Vitória e pagava uma laranjada para dividir por dois.
Desta vez levava o coração em alvoroço e não era do medo que os carros atropelassem o meu irmão, era de mim e de falhar a uma ideia alimentada durante anos, sobretudo nas alturas de maior desalento, quando o trabalho me aborrecia ou a minha vida era engolida por obrigações exigentes e rotineiras. Um dia, dizia e repetia, um dia vou experimentar esgrima, vou vestir aquele fato, aquela máscara e, com uma espada na mão, vou lutar e derrotar os meus demónios, seja qual for o formato. Eu tive muitos nos últimos 30 anos, vieram em forma de stress, de luto, de cancro, de despedimento colectivo e alguns azares no amor. E para cada um, para cada dor a atravessar-me o peito, a imagem de uma sala de armas - mais parecida com a de um castelo do século XIX do que aquela que encontrei depois de subir e descer escadas - surgia-me na cabeça para amansar a perda, a tristeza e os destroços que o sofrimento deixa em nós.
Ali estava eu, uma senhora de uma certa idade no meio de miúdos a prepararem-se para uma prova, equipados como mandam as regras, elegantes e rápidos, enquanto o treinador, cheio de paciência, explicava o básico e sugeria que, no caso, talvez fosse melhor escolher a espada, que o sabre e o florete exigem mais técnica e têm regras mais complicadas. A espada pode ser, sim, eu brinquei às espadas, feitas de cabo de vassoura e uma garrafa de óleo cortada ao meio como proteção de mão. O treinador riu-se, é mais novo e não deve ter visto os filmes de piratas, de duelos à espada de um navio para outro. O meu irmão e eu vimos e imaginamos que o terraço, os degraus e o terreiro à frente da cozinha da casa das minhas tias eram, à vez, navios piratas e galeões espanhóis num jogo do rato e do gato, no mar das Caraíbas. Ou navios ingleses à caça dos lendários comandantes piratas, astutos e inteligentes, também bêbedos e divertidos. Nenhum de nós queria ser o inglês ou o espanhol, queríamos ser o bom malandro, que roubava sem vergonha e, apesar de tudo, batia-se com honra.
E mudou pouco. A esgrima ainda é um desporto de cavalheiros, elegante, que nunca começa antes de se cumprimentar o adversário, o que, nem assim, retira a vontade de ganhar, de desarmar e de ter a estocada final, o ponto que dá a vitória. A luta, explicou-me o treinador, faz-se em cima das pernas, com as costas direitas, com a mão livre levantada, a atacar e a defender, sem sair das linhas, mas antes de estar ali, ligada à máquina que assinala os pontos, ainda falta a aventura - sonhada e imaginada - de entrar naquele fato. A tarde estava quente e, mesmo assim, não custou vestir por cima dos calções e da t-shirt os calções, a meia guarda e o casaco, a luva e, por fim, a máscara. E tive a impressão que podiam estar 30 graus à sombra e eu teria vestido tudo sem recuar, sem pensar no calor e no facto de o ar fresco entrar apenas pelas janelas. Quando dei por mim tinha a máscara na cara e tentava desarmar um miúdo que, claro, só não ganhou por mais por educação.
O dia, o tal em que haveria de lutar contra os meus demónios com uma espada na mão, estava a acontecer numa quarta-feira igual às outras, daquelas em que os pais que têm filhos inscritos em modalidades correm pelo meio do trânsito para os levar e trazer e poucas vezes percebem o que faz uma pessoa adulta no meio da correria se, além do mais, está dispensada daquelas pressas ao fim do dia. E, de facto, não era bem eu ali na sala, mas a Lina Marta de 10 anos, aquela menina que nunca fugia ao desafio do irmão mais velho, o Duarte Martinho, se o combate fosse com cabos de vassoura, a fazer de piratas ou de espadachins à frente da cozinha das minhas tias. E libertar essa memória do entulho em que afundei essa e outras ideias como ler de seguida os sete volumes de ‘Em Busca do Tempo Perdido’ ou atravessar os Alpes de comboio trouxe-me uma sensação de encantamento de que já não me sentia capaz de ter.
As sombras, os monstros ou o nome que se queira dar aos enredos em que nos afundamos talvez não tenham outro remédio, outro antídoto que não esse que se traz da infância: o dom de ver, além das coisas, uma realidade mágica e inventada. Um plano que não existe, que não se consegue tocar, uma dimensão frágil que o medo do ridículo tende a calar e atirar para o fundo da memória, como se a poesia - não a que se escreve, mas a outra, a que há na vida - fosse razão para envergonhar. E foi sob essa condição, esse estado de encantamento que fiz o caminho para casa, tão certa de que quero voltar e aprender, que aquela, com fato e máscara, na sala de esgrima, é uma das minhas melhores versões.