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A virtude da antecipação

A recente comemoração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, convida-nos a refletir sobre memória e futuro, numa dialética permanente entre o que recordamos e aquilo que projetamos e queremos construir no futuro.

As datas comemorativas só fazem sentido se forem mais do que um exercício de revisitar o passado, pois nenhuma sociedade vive apenas do passado, mas afirma-se pela habilidade de interpretar o legado que recebeu e colocá-lo ao serviço das circunstâncias do seu tempo e do seu futuro.

Portugal conheceu, ao longo da sua História, momentos em que foi capaz de pensar para além das circunstâncias imediatas. Nem sempre acertou. Nem sempre venceu. Mas houve períodos em que demonstrou uma rara capacidade de antecipação.

Nesta nossa época em que a inovação tecnológica acontece a um ritmo sem precedentes, as transformações demográficas, económicas, sociais e ambientais multiplicam-se e os acontecimentos internacionais parecem confirmar diariamente a sensação de que o mundo está em constante aceleração, é fácil deixarmo-nos absorver pela gestão do imediato e esquecer uma questão essencial, a de que as sociedades não são definidas apenas pela forma como respondem aos problemas do presente, mas também pela capacidade de reconhecer os desafios que se aproximam, e de agir antes que estes se imponham como inevitabilidades.

Talvez seja essa uma das virtudes mais raras, no entanto, mais necessárias do nosso tempo: a antecipação. Não a antecipação entendida como exercício de adivinhação ou previsão infalível do futuro, mas como a capacidade de interpretar sinais, compreender tendências e tomar decisões enquanto existe margem de escolha.

Contudo, o futuro não acontece sozinho, não se suspende nem aguarda, e raramente chega sem aviso. É construído pelas decisões que tomamos, através de escolhas feitas ou evitadas, pelas prioridades que definimos, pelas instituições que fortalecemos e pelos valores que escolhemos preservar.

Infelizmente, na política atual, com as crises, os ciclos eleitorais, as redes sociais, as muitas pressões e urgências a exigirem respostas rápidas, reações imediatas e resultados visíveis a curto prazo, há um afastamento evidente face à necessária antecipação política, ética e cívica.

Mas a boa política não se pode limitar a resolver dificuldades existentes, mas deve também concentrar as suas forças em evitar dificuldades futuras. Para tal, impõe-se que não se governe apenas face às consequências, mas deve-se procurar compreender as causas. Não convém olhar exclusivamente para o próximo orçamento ou para o próximo ciclo eleitoral, mas interrogar-se sobre o impacto das decisões tomadas hoje na vida dos jovens de amanhã.

Relembro que muitas das decisões que hoje consideramos estruturantes foram inicialmente exercícios de antecipação. A criação do Estado Social, a aposta na Educação, a Integração Europeia ou a própria Autonomia da Madeira nasceram da perceção de que os instrumentos existentes eram insuficientes para responder aos desafios emergentes.

Assim, somos todos chamados a combater a convicção de que o futuro pode ser adiado sem custos relevantes. Adia-se a reforma das instituições, adia-se a adaptação económica, adia-se a reorganização das respostas sociais e adia-se a reflexão sobre o impacto das novas tecnologias, nomeadamente em termos da inteligência artificial. Os adiamentos sistemáticos parecem querer fazer crer que o tempo é elástico e que, de alguma forma, o futuro pode ser resolvido por outros, noutras circunstâncias, com mais recursos ou melhores condições, ou porque simplesmente é mais cómodo e fácil nada fazer. Trata-se de uma ilusão que não pode persistir.

Uma sociedade que vive exclusivamente centrada no presente torna-se vulnerável, dado que perde a capacidade de preparar os seus jovens para um mundo em mudança, de proteger os seus recursos, de adaptar as suas instituições e de construir projetos coletivos duradouros.

Efetivamente, a cidadania não se esgota na participação nas decisões do presente. Inclui, igualmente, a responsabilidade perante aqueles que ainda não têm voz: as gerações futuras. Nenhuma geração escolhe o contexto que herda, mas cada geração define o grau de bem-estar das que lhe sucedem.

É por isso que a antecipação não deve ser vista como algo somente reservado a especialistas ou decisores. Tem de se assumir como um dever de todos nós, uma condição essencial de liberdade, porque só quem consegue olhar para além do presente dispõe verdadeiramente da capacidade de escolher o seu próprio futuro, em vez de se limitar a reagir ao futuro que outros construíram.

Cada vez mais, o futuro já não é uma questão de previsão, mas sim uma questão de responsabilidade no presente, que se edifica com cidadãos atentos, líderes responsáveis e uma sociedade capaz de enquadrar o progresso num horizonte ético.

O desafio que hoje enfrentamos não consiste em esperar por um tempo novo. Consiste em reconhecer que esse tempo já começou.

Até porque, como afirmou o Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Miguel Monjardino, no seu discurso do passado dia 10 de junho: “Heroínas e heróis do mar, o amanhã não é longe demais”.

P.S.: Uma palavra de incentivo à nossa Seleção Nacional para o encontro de hoje frente à República Democrática do Congo. Que o talento corresponda à ambição e que o resultado esteja à altura da esperança.