O descontentamento que São Bento devia ouvir
Há resultados políticos que dizem muito mais do que aparentam. E o resultado de Luís Montenegro nas eleições internas do PSD, sobretudo na Madeira, é um deles.
Montenegro foi reeleito líder do PSD com o menor número absoluto de votos desde que existem eleições diretas no partido e com uma abstenção recorde. Na Madeira, onde todos nós conhecemos e força mobilizadora do PSD, a participação foi baixíssima. Em termos nacionais, o apoio ao líder nacional também ficou muito aquém do que seria expectável.
Votaram pouco mais de 15% dos militantes aptos, sendo que desses 15% apenas 11% votaram efetivamente em Luís Montenegro. E a explicação não é difícil de encontrar.
A Madeira está cansada de um Governo da República que fala muito de coesão territorial, mas que depois insiste em governar para as ilhas como se fossem a mera administração de um condomínio. Primeiro foi a trapalhada do Subsídio Social de Mobilidade, com limites absurdos, exigências burocráticas quase ofensivas e uma visão profundamente centralista sobre aquilo que deveria ser uma obrigação do Estado. Agora, seguem-se sinais preocupantes no apoio aos estudantes deslocados, precisamente aqueles que mais precisam de um Estado presente.
A primeira vítima política destas opções foi Marques Mendes nas eleições presidenciais. Quem acompanhou minimamente a campanha percebeu rapidamente o descontentamento instalado. Agora foi o próprio Montenegro a sentir isso dentro do próprio partido.
Isto não preocupa São Bento?
Os madeirenses não gostam de ser ignorados. Muito menos quando sentem que só são lembrados em tempo de campanha ou quando é preciso vir buscar votos às ilhas.
A Autonomia não é um favor da República. E muito menos pode ser tolerada apenas quando não incomoda Lisboa. Quem governa Portugal tem de perceber uma coisa simples: governar para a Madeira e para os Açores exige respeito e visão estratégica. As ilhas dão muito mais ao País do que aquilo que recebem dele.