Quando o medo sussurra, a vida grita
O medo sempre foi uma ferramenta poderosa, relacionada ao nosso instinto de sobrevivência. Alimentado pelo desconhecido, cresce no vazio da informação, ou na sua distorção, tomando, assim, forma e ganhando uma dimensão coletiva. Hoje, mais do que nunca, vivemos rodeados/as por narrativas que amplificam ameaças, reais ou percebidas, criando uma sensação constante de insegurança.
Os media desempenham aqui um papel ambivalente. Por um lado, informam e alertam; por outro, podem contribuir para um clima de ansiedade permanente. A repetição de crises, conflitos e catástrofes – muitas vezes apresentada de forma sensacionalista – constrói uma perceção do mundo como um lugar mais perigoso do que aquilo que os factos, isoladamente, demonstram. O medo vende, capta atenção, torna-se viral e gera cliques. Mas a que custo?
A atual crise energética é um exemplo claro. Entre previsões alarmistas e incerteza geopolítica, instala-se a ideia de escassez inevitável e de futuro instável. Este cenário, ainda que assente em desafios reais, é frequentemente apresentado sem contexto ou soluções, contribuindo para um sentimento de impotência coletiva. O medo das suas consequências leva a que muitas pessoas comecem a adiar as suas vidas, a congelar decisões e a viver num estado constante de ansiedade, fragilizando a sua saúde mental.
Neste ambiente, conceitos fundamentais como liberdade, igualdade e direitos humanos tornam-se frágeis. O medo leva à aceitação de medidas excepcionais – que retiram direitos que nunca são repostos de igual forma, após a resolução da crise –, à tolerância de desigualdades e, por vezes, à erosão de garantias básicas. Em nome da segurança, abre-se espaço para o controle excessivo e para a exclusão do “outro”, e tudo o que é diferente da norma, é visto como ameaça.
A violência, por sua vez, encontra terreno muito fértil neste clima. Não apenas a violência física, mas também a simbólica: o discurso de ódio, a polarização e a desumanização. Quando o medo domina, a empatia – a capacidade de se colocar no lugar da outra pessoa – recua passos de gigante.
O medo de mudar em nome da realização pessoal também gera sentimentos de culpa, pois a nossa sociedade sempre esteve alicerçada na ideia do sacrifício, de “carregar a cruz” e na resignação, muito presa aos julgamentos alheios. Como tal, o medo paralisa e impede-nos, tantas vezes, de dar saltos de fé em direção ao novo.
Importa, por isso, questionar: quem é que beneficia, em primeiro lugar, de uma sociedade amedrontada? E que papel queremos assumir enquanto cidadãs e cidadãos? A resposta pode começar pela exigência de informação rigorosa, pelo pensamento crítico e pela recusa em ceder ao pânico como forma de decisão.
O medo é inevitável. Mas viver sob o seu domínio não é. Há que tomar medidas para que não nos deixemos levar na corrente. Há que cuidar do nosso bem-estar e filtrar a informação que vemos, reservando espaço para viver o agora sem tecnologias. Aceitar o medo como parte da nossa natureza biológica é também importante, mas sem ser um pretexto para discriminar e rejeitar. Deixemos de sentir culpa de sorrir, de escolher e viver a felicidade, enquanto o mundo à volta inunda-nos de notícias negativas. A liberdade também passa por aqui.