Redes sociais: da sobre-exposição ao “zero post”
À medida que as redes sociais se foram instalando nas nossas vidas, fomos habituando-nos a encará-las como extensões da nossa identidade que podem aumentar a nossa relevância e valor. Passaram a ser vistas como uma montra permanente onde tudo – ou quase tudo – tem de ser publicado, registado e validado online: local de trabalho, comida, viagens, compras, passeios, treinos, sentimentos, relacionamentos, etc.
Durante anos, criou-se a ideia de que visibilidade era sinónimo de felicidade. Sem nos apercebermos, fomos cedendo a uma pressão silenciosa das redes sociais, criada para transformar a vida em conteúdo. Não nos contentamos com viver uma experiência, temos de comprovar que a vivenciamos. Contemplamos uma paisagem e imediatamente tiramos o telemóvel para registar a imagem e difundi-la. Por vezes, o próprio valor pessoal é medido através do número de “likes”, visualizações e validação externa.
Contudo, alguns estudos apontam para o facto de a forma de marcar presença nas redes sociais estar a mudar. O excesso de exposição e o estímulo constante estão a dar lugar a novos comportamentos digitais, como o fenómeno “zero post”, que consiste em manter um rigoroso “low profile”, ou seja, um perfil vazio ou praticamente vazio, sem publicações de aspetos relacionados com a vida pessoal. Desta forma, o utilizador continua presente nas redes sociais, mas prefere observar em silêncio, não se expondo e salvaguardando a sua privacidade.
Sempre houve pessoas que priorizam uma postura mais reservada nos canais digitais, mas o que leva a uma mudança de comportamento, passando de um perfil ativo a um “low profile” completamente inativo (o que não implica abandonar as redes sociais)?
Talvez por exaustão ou desinteresse, na medida em que o utilizador não consegue acompanhar o ritmo de publicações que lhe surgem no “feed”. Ou então porque conseguiu libertar-se do desgaste emocional causado pela cultura da presença constante. Está cansado de ser constantemente abordado com desinformação através de publicidade, influenciadores e conteúdos gerados por IA.
Passou a valorizar mais a sua privacidade e prefere partilhar os seus conteúdos em espaços mais restritos que não dependam da audiência, ou seja, em vez de interagir através de publicações públicas, prefere mensagens privadas e grupos fechados. Alguns optam por publicar apenas “stories”, por terem um carácter efémero (desaparecem em 24 horas).
Portanto, há agora mais unanimidade na perceção de que nem tudo o que é importante tem de ser mostrado (a todos). Como tal, o “low profile” deixou de ser visto como falta de socialização, passando a representar, para muitos, equilíbrio, maturidade e até sofisticação.
Esta forma de estar nas redes sociais preocupa as empresas e as marcas (embora algumas também optem por uma estratégia de “zero post” para gerar suspense), que podem ser obrigadas a reorganizar a sua presença digital, tendo de equilibrar melhor a sua visibilidade pública com a proximidade privada.