Há comparação possível entre os apagões da Madeira e os da Venezuela?
A energia eléctrica faltou em duas localidades da Madeira, durante a tarde deste sábado. Foi em São Paulo da Ribeira Brava, primeiro, e, depois, na freguesia de São Vicente. Os dois eventos suscitaram muitos comentários nas redes sociais, aqui destacando-se os deixados no Facebook do dnoticias.
Entre essa muitas reacções, várias pretenderam comparar o que acontece, neste momento, na Madeira, com o histórico de apagões na Venezuela. Mas, será a situação da Região comparável à realidade daquele país sul-americano?
A verificação da veracidade da afirmação implicou, por um lado, o levantamento de notícias publicadas na imprensa regional sobre cortes de energia e apagões, sobretudo nos últimos dez anos, com uma nota marginal para episódios anteriores, e, por outro, a consulta de notícias internacionais sobre a crise eléctrica venezuelana e as suas consequências sociais e económicas. Também tivemos em conta o contexto dos comentários feitos à notícia do DIÁRIO, onde surgem referências a “Venezuela”, a “filas para gasolina” e a uma alegada degradação geral do sistema.
Comecemos pela Madeira. O que sucedeu em São Paulo, na Ribeira Brava, e em São Vicente, no mesmo dia, foram falhas localizadas. Em São Paulo, o DIÁRIO noticiou que os moradores estavam sem luz há mais de três horas, desde as 13 horas, o que ainda se prolongou por mais duas. Em São Vicente, o corte afectou cerca de 600 casas e ocorreu pouco antes das 20 horas, depois de já se terem sentido anomalias ao fim da tarde. No próprio espaço de comentários, houve quem relativizasse o alcance do problema, dizendo ter mantido sempre electricidade, e quem o distinguisse de outro corte, mais longo, em São Paulo. Nada disto aponta para uma quebra geral do sistema regional.
Aliás, o histórico regional mais recente mostra uma realidade diferente da venezuelana. Nos últimos anos houve falhas localizadas e alguns apagões com maior dimensão, mas não um quadro continuado de colapso.
Em 2025, houve uma avaria em Câmara de Lobos que deixou zonas do concelho sem energia por mais de uma hora; em 2024, um corte na Estrada Monumental deixou estabelecimentos e moradores sem luz durante cerca de 40 minutos; em 2023, os incêndios deixaram 400 consumidores sem electricidade na Calheta e no Porto Moniz. O caso mais grave da última década ocorreu em Março de 2021, quando toda a ilha da Madeira ficou sem luz às 20h40, seguindo-se novo apagão geral na manhã seguinte, ambos associados ao mau tempo e a descargas eléctricas, ficando, por razões óbvias, o Porto Santo de fora no primeiro episódio.
Mesmo olhando um pouco para trás, o padrão mantém-se. Em Fevereiro de 2010, o DIÁRIO dava conta de um apagão de cerca de 40 minutos, provocado por descargas atmosféricas sobre linhas de alta tensão, com o sistema a desligar por segurança. Em Janeiro de 2013, voltámos a referir um apagão de 30 a 60 minutos causado por uma avaria numa central privada do Caniçal, lembrando ainda que esse era o terceiro apagão em curto espaço de tempo. Trata-se, portanto, de uma história de ocorrências reais, por vezes relevantes, mas geralmente curtas e explicadas por fenómenos meteorológicos ou falhas técnicas identificáveis.
A comparação com a Venezuela falha precisamente quando se passa da impressão para a escala. Na Venezuela, os grandes apagões de 2019 tiveram dimensão nacional e duração de dias. A Reuters recordou que, em Março desse ano, houve falhas generalizadas que atingiram a maior parte do país, com alguns cortes a prolongarem-se até três dias. A mesma agência referiu que, em 2024, um novo apagão afectou os 24 estados do país. Não estamos a falar de 600 casas, nem de duas localidades, nem de uma tarde difícil. Trata-se de um problema repetido, de âmbito nacional e com efeitos sistémicos.
Além disso, na Venezuela, os apagões cruzam-se com uma crise estrutural. A Reuters afirma que especialistas atribuem os cortes de anos recentes à falta de manutenção e ao desinvestimento no sistema eléctrico. Em 2019, as falhas deixaram milhões de pessoas sem água e sem telecomunicações, agravaram a situação dos hospitais e provocaram mortes; em 2024, o regresso do apagão nacional voltou a afectar exportações petrolíferas e a gerar corridas a gasolina e comida. Já as longas filas para abastecimento de combustível, de que fala o comentário analisado, não são um detalhe isolado. Tais filas foram recorrentes na Venezuela em 2020, 2021 e 2022, com motoristas à espera durante dias, devido a falhas de refinação e falta de importações.
Ora, nada no que aconteceu agora na Madeira permite uma equivalência desse género. Não há notícia de corte nacional, de paralisação prolongada da Região, de colapso no SESARAM por falta de energia, de falha generalizada de telecomunicações, de interrupção duradoura no abastecimento de água ou de filas para combustível causadas pelos cortes de luz.
Agora, em São Paulo e São Vicente, o que houve foram duas ocorrências localizadas, no mesmo dia, em dois pontos distintos, num arquipélago que tem histórico de avarias e apagões, sim, mas não de uma crise energética crónica comparável à venezuelana.
Como se verifica, a afirmação exagera radicalmente a dimensão e o significado do que aconteceu na Madeira. A Região conhece cortes de energia e já sofreu apagões gerais, em especial em contexto de mau tempo, mas isso não a coloca “igual à Venezuela”. Nesse país, os apagões foram nacionais, repetidos, prolongados e inseridos numa crise estrutural com consequências profundas no quotidiano. Na Madeira, o que ocorreu desta vez terá sido complicado para quem foi afectado, mas de âmbito local e circunscrito. Pelo exposto, avaliamos a comparação como falsa, ainda que possa ser entendida como uma hipérbole com raiz emocional.