Domingo à tarde
A minha mãe ficou com a máquina Singer e a tesoura, era para ser costureira antes de descobrir que tinha mais jeito para bordar
Domingo à tarde. No rádio a pilhas ouve-se o locutor anunciar um golo do Marítimo, mas o meu pai está a dormir na cadeira de lona e só vai acordar para ir jogar cassino na garagem do meu tio Humberto. O campeonato faz-se sempre aos domingos, com os homens sentados em cima de grades de cerveja, a fumar e a anotar os pontos num caderno de papel. Não há homem da vizinhança que não acabe lá, a gritar ‘clareza’ e a contar cartas e pretas. Não interessa o clube que o meu tio não esconde que é do Porto e que sofre pelo Marítimo.
A minha mãe despacha a loiça e arruma a cozinha, também ela tem pressa para pentear o cabelo e vestir uma roupa melhor, antes de descer os degraus da entrada e fazer os metros de caminho que separam a nossa casa daquela onde nasceu e cresceu. E é para lá que vão todas, a minha mãe e as minhas três tias. A quarta está no Brasil e só a vamos ver uma vez, anos depois da minha mãe morrer, mas há uma fotografia onde estão todas: os meus avós e as cinco filhas.
Os homens são poucos e o poder são aquelas quatro mulheres de meia idade. O meu pai brinca, diz que não se tomam decisões sem passar por aquele conselho de estado ao domingo à tarde. É à porta da cozinha que se fala de tudo: do que há para semear no jardim, do novo horário das missas e também se destina o trabalho da fazenda. Os planos de cada uma são discutidos ali, não há segredos, nem para comprar uns sapatos novos ou começar umas obras.
A minha tia Alice é a mais pessimista; a tia Conceição faz compras por impulso e a minha mãe é a mais cautelosa, mas, quase sempre, vence o bom senso da minha Teresa. Às vezes a discussão assume dimensões inesperadas, há amuos, mas nunca duram mais de uma semana. No domingo seguinte estão juntas, são quatro pessoas e, ao mesmo tempo, são um todo num laço que se alimenta da história que partilham. O meu avô, a minha avó, os meus bisavós estão mortos, mas é como se ainda estivessem por aqui.
E, além das flores, das missas e da sala nova que o meu pai quer construir, não há domingo ou tarde à volta do bordado em que não contem histórias de quando eram crianças, daquele tempo em que não havia electricidade, nem água potável a não ser na fonte. E fazem o retrato da minha avó, uma mulher que levava à letra as recomendações do padre: não havia saias acima do joelho, nem mangas acima do cotovelo. O meu avô, pelo contrário, é um homem bom e paciente, mas da linhagem toda não há quem as orgulhe mais do que o bisavô Velosa, que chegou aos 100 anos.
Eu não os conheci. Da minha avó tenho a memória vaga do vulto de uma mulher vestida de cinzento, do meu avô lembro-me das mãos grandes e de me ter tentado ensinar a ordenhar. Já o bisavô é um retrato pintado e afixado na sala da minha tia Alice. Também deixaram terrenos e casas, móveis e objectos que dividiram entre elas. A minha mãe ficou com a máquina Singer e a tesoura, era para ser costureira antes de descobrir que tinha mais jeito para bordar.
A minha mãe e as minhas tias são como os amigos de muito anos: contam as mesmas histórias uma e outra vez e sempre que lhes peço. Os meus primos são adultos e têm as suas vidas e preocupações; o meu irmão prefere os filmes da sessão da tarde e, de todos, sobro eu. “Tia, tia pode contar aquela da prima que caiu de cama no dia em que o marido morreu na América? E a história do tio José?” E a minha tia Alice, que todas, é a que tem mais engenho para me falar daquele tempo, diz que não percebe este gosto e eu não sei explicar, mas conforta-me saber daquelas pessoas, desses desconhecidos que me antecederam, da linha me trouxe até a um domingo à tarde no meio de uma conversa das minhas tias e a minha mãe.