O 25 de Abril foi a luz, o 1º de Maio o caminho
Fui dirigente sindical a tempo inteiro durante 26 anos. Coordenei o Sindicato dos Bordados da Madeira, ajudei a fundar a União dos Sindicatos da Madeira e fui dirigente da CGTP durante 20 anos.
Negociei, enquanto dirigente sindical, contratos de trabalho. O nosso primeiro contrato foi publicado no BTE a 1 de maio de 1975. Ajudei a elaborar propostas de lei, estudei dossiers importantes para estar preparada para defender as reivindicações de quem eu representava. Pela primeira vez no setor onde eu trabalhava, soubemos o que era ter direito a um salário mensal, férias e subsídio, horário de trabalho de 8 horas, subsídio de Natal, direitos da maternidade, etc... As bordadeiras que trabalhavam em casa começaram a ser, pela primeira vez, tratadas enquanto trabalhadoras e começaram a usufruir de direitos que mais nenhum/a trabalhador/a domiciliário/a tem, que incluem direitos de proteção social, reforma, regulamentação da sua atividade com aumentos anuais, etc...
Participámos em todas as lutas que foram desenvolvidas, as nossas e as gerais. Fomos sempre solidárias, e também recebemos muita solidariedade. Nem sempre as lutas foram vitoriosas, mas valeram sempre a pena. Tudo era feito com muita alegria e convicção. Participámos nas greves gerais que quase sempre tinham na base propostas de “pacotes laborais” que sempre quiseram liberalizar as condições de trabalho como, lamentavelmente, ainda hoje acontece.
Este percurso só foi possível porque aconteceu o 25 de Abril. Antes a nossa vida, enquanto operárias, era de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Aos 21 anos , fui estudar à noite, mesmo contra a vontade do meu pai. Tinha uma vida duríssima, mas o desejo de aprender mais era como que uma necessidade para poder respirar. O 25 de Abril abriu-me as portas para aprender mais do que qualquer universidade. Fiz cursos diversos, viajei em trabalho e conheci outras realidades. Preparei e fiz intervenções em várias Instituições, desde Universidades até Municípios e Escolas Profissionais. Nunca pensei que uma operária da Madeira fosse escutada com respeito por tantas entidades distintas. Tive sempre ao meu lado as trabalhadoras, dirigentes sindicais, a minha família e pessoas amigas que fui conhecendo ao longo deste percurso.
Fui a primeira mulher operária a ser Deputada Regional, entre 2000/2004, e fui autarca Municipal e de freguesia em vários mandatos. Tenho tido uma vida muito realizada, e a minha sede de saber mais tem sido preenchida com novas caras, novas ideias, novos lugares, novas linguagens, novos gestos e novos objetivos.
Depois de me reformar, editei um livro com memórias do meu trabalho sindical, coordenei um livro com 10 histórias de mulheres, integrado no Projeto da UMAR “Memórias e Feminismos”. Continuei ativa na associação UMAR, da qual fui cofundadora em 1976, onde fiz parte da sua Direção durante 2 mandatos, fui Conselheira para a Igualdade no Município do Funchal desde 2014 a 2021. Agora sou Conselheira Honorária no mesmo município.
Tudo isto graças ao 25 de Abril que me abriu as portas da liberdade, da participação, da dignidade enquanto mulher e trabalhadora, que me permitiu sair dos muros da fábrica, que me permitiu aprender a ser gente de verdade e que ainda hoje continuo a participar e a fazer o que a vida me permite.