Júpiter e Marte
Desde sempre a humanidade assistiu a uma dança curiosa, tão triste como enigmática, o que na mitologia grega, seria a relação entre Zeus e Marte.
Zeus é o rei dos deuses, o supremo governante do Olimpo, Deus do céu, do raio e trovão. Respeitado, incontestado, é a figura divina suprema e postula a doutrina a seguir para manter a justiça e a ordem no mundo. Marte (Ares em grego) é, em vez, o deus da guerra e amante de Afrodite. Marte é o filho odiado de Zeus. Impulsivo, truculento, selvagem, por vezes fanfarrão, ele representa a guerra e destruição. Os seus filhos ilustram a sua herança: Fobos (o medo) e Deimos (o terror). Zeus considerava-o o mais detestável dos olímpicos.
Figurativamente, esta pode ser uma boa ilustração para a relação entre a religião e a guerra.
Se nos tempos da Grécia antiga e do Império Romano, esta relação era relevante, hoje ela continua bem atual.
A questão que surge é saber se, de fato, as guerras são maioritariamente religiosas ou se, em vez, a política e a estratégia económica usa a religião como fator aglutinador de vontades e com justificação ideológica para facilitar a guerra. E aqui, como em muitas outras questões da nossa civilização, por baixo da aparência, a realidade pode ser bem diferente…
Se tivermos a curiosidade de analisar, os exemplos repetem-se ao longo da história. Uma das mais importantes guerras ditas religiosas aconteceu na Europa do século XVII, a Guerra dos Trinta anos. Ela aconteceu imediatamente após o grande cisma do cristianismo, onde o protestantismo separou-se do catolicismo, mas, em boa verdade, a França católica aliou-se às forças protestantes germânicas para combater a monarquia católica dos Habsburgos austro-húngaros.
Na guerra da Bósnia e do Kosovo, os países cristãos do ocidente uniram-se para apoiar os muçulmanos ameaçados pela Sérvia cristã ortodoxa. Por outro lado, países muçulmanos como a Líbia e o Iraque apoiaram o regime sérvio de Milosevic. E no atroz genocídio do Ruanda, o conflito entre as etnias (ambos povos cristãos) teve o repúdio da comunidade muçulmana do Ruanda que deu abrigo a ambas as etnias cristãs em guerra. Recentemente, no médio oriente observa-se a conjugação de todas estas realidades complexas entre religião e guerra que muitas vezes não são mais que um encobrimento da “Realpolitik” na luta nua e crua pelos recursos e pelo poder político hegemónico.
Daqui resulta uma necessidade imperiosa, como postulava Martin Luther King, a da consciente e genuína reconciliação das religiões. Na verdade, defendia o Ecumenismo religioso, o que agora é o movimento de diálogo e aproximação entre as diferentes denominações cristãs (católicos, ortodoxos, protestantes/evangélicos), visando a unidade na diversidade, superando as tristes divisões históricas de forma a agir em conjunto, sem obrigar a uma uniformidade doutrinal. Ou ainda visando a unidade com outras religiões não cristãs, ideia lançada inicialmente pelo Papa João Paulo II, que colocou o Ecumenismo como prioridade absoluta do seu pontificado.
Como ressalvou o Vaticano numa conferência recente, há que ter a humildade de reconhecer o trabalho das igrejas, no caso específico das católicas, na busca pela paz. Desde a Colômbia a Caxemira, do Camboja à Nicarágua, do Benim às Filipinas, a palavra de Zeus é a palavra Paz, a de Marte, a palavra Guerra. A mensagem papal é clara: “A guerra é uma inútil chacina e demonstra o fracasso da humanidade” (Papa Benedito XVI); “Com a guerra tudo é perdido e é sempre uma derrota” (Papa Francisco). O Papa Leão XIV vai mais longe, “Ai dos que manipulam a religião, e o nome de Deus, para seu próprio ganho militar”, uma mensagem clara e comum para muitos destinatários.
Mais uma vez, a perceção imediata e a realidade profunda são faces bem distintas da mesma moeda.