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Entre o ruído e o essencial: à deriva

Vivemos um tempo inquietante, em que o século XXI parece, por momentos, desmentir as promessas que o fundaram. Aquilo que julgávamos adquirido revela-se, afinal, mais frágil do que pensávamos.

A guerra continua a marcar o nosso presente. A possibilidade de um agravamento sério do conflito no Médio Oriente, envolvendo o Irão, faz pairar um espectro adicional: o de uma crise energética global. Num mundo ainda profundamente dependente de combustíveis fósseis, qualquer escalada pode traduzir-se num enorme aumento de preços, instabilidade económica e maior desigualdade. Mais uma vez, são as pessoas mais vulneráveis que pagam o preço mais alto. Quando a guerra deixa de nos indignar e passa a ser apenas mais um fator de mercado, o problema já não é apenas geopolítico: é moral.

Mas há outros sinais de retrocesso igualmente perigosos. Na Comissão das Nações Unidas sobre o Estatuto das Mulheres, os EUA votaram contra um documento de promoção dos direitos das mulheres e raparigas, sendo o único país a fazê-lo entre dezenas de votos favoráveis. Este episódio não é apenas simbólico: revela uma tendência mais ampla de contestação de consensos internacionais que demoraram décadas a construir.

Também na Europa, onde tantas vezes se invocam valores humanistas, surgem decisões que levantam sérias questões. O Parlamento Europeu aprovou recentemente uma lei, em comissão, que permite a realização de buscas domiciliárias e a criação de centros de detenção fora da UE para aumentar o regresso de migrantes em situação irregular. A medida, apresentada como solução para a gestão migratória, levanta questões importantes sobre o respeito pelos direitos fundamentais, nomeadamente o tratamento digno de quem procura refúgio ou melhores condições de vida, podendo abrir precedentes preocupantes em matéria de liberdades individuais para todas as pessoas.

Ao mesmo tempo, crescem as intolerâncias. Casos de hostilidade contra cristãos em Jerusalém, entre outros ataques a diferentes religiões, crenças e povos, mostram que os preconceitos continuam bem vivos. O obscurantismo regressa, muitas vezes alimentado pelo medo e pela desinformação, e a misoginia continua a crescer, disfarçada de moralidade.

Por sua vez, a sucessão constante de crises – guerra, energia, migrações, direitos – transforma o excecional em rotineiro. E quando tudo parece normal, ou quando o medo domina o discurso mediático, deixa de haver urgência em reagir. No entanto, a história ensina-nos que os direitos nunca foram garantidos; foram conquistados. E continuam a depender da vigilância de pessoas atentas, críticas e envolvidas.

Milhões de pessoas em todo o mundo, mais recentemente nos EUA e no Reino Unido, têm-se manifestado nas ruas contra políticas de opressão, retrocessos, intolerância e guerra, ainda que estas manifestações raramente recebam o destaque que merecem. Num mundo saturado de ruído, distrações e indignações passageiras, importa recentrar o olhar: na dignidade humana, na igualdade, na justiça. Porque é aí que tudo começa, e é aí que tudo pode ser salvo. Talvez ainda vamos a tempo, se escolhermos estar mais atentos/as ao que realmente importa.