Maioria da flores para a Festa da Flor são importadas?
A imagem repete-se todos os anos e parece indiscutível. Cor, animação, milhares de flores a preencher ruas e carros alegóricos num cenário que a Festa da Flor da Madeira apresenta como expressão da natureza da Região. Mas por detrás do impacto visual há uma pergunta que insiste em regressar: de onde vêm, afinal, as flores que dão corpo ao desfile? A dúvida instala-se como foi o caso do leitor do DIÁRIO, evocando a exuberância do cartaz mas dizendo que “é ela própria é um absurdo e uma falsidade, a começar pela quase totalidade da flor exibida ser importada”.
É a partir daqui que avançamos com este fact-check. A resposta não surge de imediato. E quando começa a desenhar-se, afasta leituras simplistas. No plano institucional, a ideia mantém-se consistente. A Madeira produz flores e essa produção está presente no cortejo. Espécies como as estrelícias, proteas ou antúrios continuam a ser associadas ao evento e à própria imagem da Região. Há, portanto, uma base que sustenta o discurso oficial. Mas entre os madeirenses, há quem tenha a percepção menos linear.
“Algumas são da Madeira, mas a maioria é de fora. A florista encomenda porque não temos capacidade cá”, admite Carina Pestana, organizadora e participante num dos grupos do desfile. A afirmação aponta para um problema de produção regional que não consegue, por si só, responder à dimensão do evento.
A mesma leitura é partilhada por Sandra Abreu, da associação Tramas e Enredos, que descreve um modelo de funcionamento já consolidado. “A grande, grande maioria é de importação”, refere, explicando que os grupos recorrem a floristas que asseguram o fornecimento, muitas vezes através de produtores externos. “Há flores que aqui não existem em quantidade suficiente para dar resposta”, acrescenta, apontando para o volume de produção necessário para um evento desta envergadura e a falta de escala que a Madeira tem.
Ainda assim, o cenário não é uniforme. Há grupos que continuam a trabalhar com fornecedores locais, ainda que com limitações evidentes. A variabilidade anual da produção, influenciada por factores como as condições meteorológicas, condiciona a disponibilidade de algumas espécies e obriga a ajustamentos.
É neste contexto que surge uma tentativa de quantificação. José Rodrigues, da Associação Batucada da Madeira, aponta para uma repartição: “Diria que 40% é de cá e 60% é importado”. A explicação é pragmática. “Tudo o que é verdura, proteas e estrelícias conseguimos aqui. O resto tem de ser encomendado porque não há escala”, sustenta os motivos.
A dimensão do desfile ajuda a compreender esta dependência. Cada grupo mobiliza, em média, entre 120 a 160 participantes e necessita de milhares de flores para compor trajes e estruturas. Quando essa procura se concentra num curto espaço de tempo, a capacidade de resposta do mercado regional torna-se insuficiente. Ainda recentemente e a Antena1 fez reportagem dando conta que “mais de 90% das flores da Festa da Flor da Madeira são importadas, sobretudo do continente, Holanda e América do Sul, num cenário de preços elevados e desaparecimento de floricultores locais, deixando cada vez menos flores regionais no cortejo alegórico”.
A questão não se resolve apenas com produção. A diversidade exigida, os custos e a resistência das flores utilizadas também pesam nas decisões de compra. Algumas espécies são mais acessíveis fora da Região, outras garantem maior durabilidade em condições de calor e exposição prolongada.
Perante este quadro, não existem dados oficiais que permitam afirmar que a maioria das flores é importada. Mas os testemunhos recolhidos no terreno apontam para uma dependência do exterior, sobretudo quando está em causa assegurar volume e variedade.
A Festa da Flor continua a ter uma ligação efectiva à produção madeirense. Essa ligação é visível e relevante. Mas, na prática, o evento faz-se também com recurso a um mercado mais alargado. Entre aquilo que é produzido localmente e o que chega de fora, a resposta não é absoluta. É feita de proporções, de circunstâncias, de necessidades e de opções.