Guerra é desastre para todos, mas responsabilidade é de Israel
O embaixador iraniano em Lisboa considerou hoje que a guerra desencadeada por Israel e Estados Unidos a 28 de fevereiro "é um desastre para todos" e responsabilizou o primeiro-ministro israelita por procurar inimigos para o Presidente norte-americano.
"É um desastre para todos. Desastre para o Irão, desastre para a região, desastre para a Europa. Uma melhor negociação é muito melhor do que uma boa guerra. A guerra é má, seja qual for o motivo, exceto em legítima defesa, como é o caso", afirmou Majid Tafreshi numa entrevista à agência Lusa, em que pediu "respeito" pela lei internacional.
Questionado pela Lusa sobre se é o líder israelita Benjamin Netanyahu quem manipula meios e situações para Donald Trump agir, o diplomata iraniano aconselhou o Presidente dos Estados Unidos, cujo país tem conduzido mais ataques contra o Irão, a "ver o que está a fazer".
"Acho que ele deve ver o que está a fazer. Ele não é um homem de oito anos, acredita que todos o seguem. O que é a sua herança para a lei internacional? Se você for dar mais possibilidades para usar força e poder, não vamos ter no futuro, definitivamente, um mundo melhor", afirmou Tafreshi.
"Mas o poder de lógica, o poder de compreensão, o poder de respeito, isso é o que precisamos como superpoder para viver na comunidade internacional. Hoje, a solidariedade iraniana dentro do país é muito maior do que há um mês, porque sabem que estamos a ser atacados", acrescentou.
Para o diplomata iraniano, os Estados Unidos "não vieram para uma mudança de regime", pois "mantêm ou aumentam as sanções", bem como "os embargos bárbaros e ilegais", ao mesmo tempo que "falam de direitos humanos", razões de sobra para que Teerão "atue em legítima defesa, em prol dos valores e soberania" do Irão.
Instado pela Lusa sobre quem realmente manda no conflito, se Israel se os Estados Unidos, Tafreshi respondeu não ter dúvidas de que Trump "não queria atacar".
"Se assim não fosse, porque começou a pedir negociações? Acho que isso é, de novo, um mau comportamento de Israel, que está a tentar encontrar e criar inimigos para si [Trump]. O inimigo de Israel é a sua própria política. Eles precisam é de encontrar um jeito de ter uma coexistência pacífica com eles próprios e com os países vizinhos", frisou.
"Eles têm muito dinheiro. Poderiam investir em evitar toda uma guerra em vez de atacar. Que países Israel ainda não atacou? A Guerra dos Seis Dias, depois disso a Síria, a Palestina, o Líbano, o Irão e outros? Acusam, hoje, um, exageram, depois, com outro", referiu, repetindo que a comunidade internacional deve respeitar as resoluções do Conselho de Segurança da ONU.
E insistiu: "Não há razão para a continuação [da guerra]. Mas a legítima defesa é a única razão para o Irão continuar a defender os seus próprios países e pessoas".
Palavras que vão ao encontro da posição defendida pelo chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, que afirmou que o Irão "está preparado para qualquer cenário", mesmo o que prevê o envio de tropas terrestres norte-americanas para o país.
Reiterando que o Irão "não é uma ameaça para ninguém", o embaixador iraniano em Lisboa defendeu a ideia de que a comunidade internacional deve, antes de mais, analisar as raízes das tensões entre Israel e Estados Unidos, de um lado, e o Irão, do outro, lembrando as resoluções da ONU.
Sobre a proposta de negociações lançada no passado fim de semana por Paquistão, Arábia Saudita, Egito e Turquia, o representante diplomático de Teerão mostrou-se recetivo, pois a diplomacia, defendeu, "é a única solução válida para a paz e segurança no mundo".
"Usa-se a força e abusa-se do poder. Essa metodologia, dia após dia, aumenta esse 'feedback' negativo. Não se pode semear agora um conflito, pois os resultados no futuro serão assustadores. Bombardear a mesa das negociações é trair a diplomacia", argumentou.
"Trump e outros. Não estou a fala apenas sobre Trump. Eles têm uma lógica para qualquer coisa. Exagerando. Esse tipo de atuação não é símbolo de democracia. O símbolo de um Presidente deve ser baseado nas leis internacionais. Não apenas com 'bullying'. Eu estou a fazer isto, eu estou a fazer aquilo. Exageram para depois criar o conflito", concluiu.
Os Estados Unidos e Israel lançaram a 28 de fevereiro um ataque militar ao Irão, que justificaram com a inflexibilidade da República Islâmica nas negociações para pôr fim ao enriquecimento de urânio no âmbito do seu programa nuclear, que afirma destinar-se apenas a fins civis.
Em retaliação, o Irão encerrou o Estreito de Ormuz e lançou ataques contra alvos em Israel, bases norte-americanas e infraestruturas civis em países da região como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Jordânia, Omã e Iraque.