DNOTICIAS.PT
Mundo

Venezuelanas saíram às ruas para exigir justiça e liberdade para presas políticas

None

Dezenas de venezuelanas saíram hoje às ruas de Caracas, para assinalar o Dia Internacional da Mulher e exigir justiça e liberdade para as mulheres presas por motivos políticos, assim como respeito pelos direitos humanos na Venezuela.

Com cartazes com nomes e fotos de algumas presas políticas e expressando palavras de ordem em defesa da justiça e da democracia no país, as venezuelanas concentraram-se na Praça de França, em Altamira, percorrendo depois a avenida Francisco de Miranda até Chacaíto, ambas localidades no leste de Caracas.

"A luta continua. Hoje, estou a participar para lutar pela liberdade das mulheres e das minhas companheiras que passaram tantos anos comigo", explicou à Lusa Carla da Silva, uma luso-venezuelana que foi libertada em 25 de janeiro de 2026, após mais de cinco anos de prisão de uma condenação de 21 anos por conspiração contra o regime de Nicolás Maduro.

A lusodescendente explicou que na Venezuela as mulheres são tidas como "danos colaterais e pouco consideradas para as libertações" das políticas.

Explicou ainda que esteve presa no Instituto Nacional de Orientação Feminina (INOF), que abriga quase mil mulheres, muitas delas inocentes ou que já cumpriram as suas penas, mas não foram libertadas.

Sobre a Lei de Amnistia aprovada em fevereiro pelo parlamento diz que "o importante é sair em liberdade"

"Não precisamos de um perdão, porque somos inocentes (...). É importante que todas as mulheres sejam tidas em conta, que revejam os casos de forma minuciosa", disse.

Por outro lado, Andreína Baudel, do Comité pela Liberdade dos Presos Políticos da Venezuela (Clippve), a organização que convocou a manifestação, explicou à Lusa que "a luta pela liberdade dos presos políticos continua".

"Sim, mas hoje mais renovada porque, depois de tanto tempo, estamos a ver uma luz no fim do túnel. Nem todos saíram [em liberdade], mas um grupo importante de presos políticos saiu e isso renova o compromisso de libertar todos", disse.

Explicou que o Clippve tem registos de mais de 700 presos políticos no país e que "persistem as condições de detenção que violam os seus direitos humanos" nos cárceres de El Rodeo I e no forte de Guaicaipuro.

Andreína Baduel explicou que apesar das mudanças ocorridas na Venezuela, "o terrorismo do Estado ainda não acabou, a estrutura criminosa ainda não foi totalmente desmantelada".

"Por isso, hoje, mais do que nunca, temos de levantar a voz para que não se esqueça o que continua a acontecer na Venezuela, porque, embora o contexto seja outro, o drama ainda não terminou", disse.

A ativista denunciou que na Venezuela a situação das mulheres é de "imensa vulnerabilidade, sendo vítimas de violência psicológica e institucional, até mesmo violência sexual", e que quando uma mulher vai visitar um preso político é "submetida a vexações, humilhações, revistas invasivas, tratamentos cruéis e ameaças".

A Portugal pede que seja "firme" para resgatar a liberdade de seus cidadãos, e explicou que o Clippve propõe criar uma coligação humanitária internacional com governos de países que têm presos políticos na Venezuela, para, através da diplomacia e ações com organismos internacionais, interceder pela liberação dos presos políticos, nacionais e estrangeiros.

Por outro lado, precisou que na Venezuela há cerca de 100 mulheres detidas por motivos políticos, enfrentando condições precárias em prisões como o INOF, Crisálida e destacamentos militares, em todo o país, inclusive no Helicóide, sede do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin), que será transformada num centro social.

Explicou ainda que desde há 19 anos que é vítima de perseguição do regime venezuelano, que o pai, Raul Baduel (ex-ministro da Defesa de Hugo Chávez), morreu em prisão. Também que os seus três irmãos já estiveram presos e que um deles permanece em cativeiro.

Andreína Baduel disse ainda que, desde há oito meses, uma comissão policial está constantemente em frente de sua casa e que só não está detida devido a medidas cautelares de proteção da Comissão Interamericana dos Direitos Humanos.